Esses dias eu consegui sentir algum carinho por você

11.03.2015 -

Cheguei em casa tarde da noite depois daquela terça-feira e desabei. Primeiro, como quem teve dia de cão e precisou domar trinta leões para colocar em ordem as redes sociais, as pendências de saúde, as finanças e seus números insuportáveis. Depois, ao tomar a dimensão daquela conversa pacífica, da boniteza das palavras trocadas, do quão maduros, crescidos e estranhos nos tornamos. Ainda assim: chorei; de alívio, de alegria, de inundar as memórias mundanas e banais que já representaram a circunferência da Terra e o sentindo de mundo por aqui.

Há muito não havia ódio, há tanto quis escrever qualquer banalidade, como: sonhei contigo, como anda tudo por aí? Avisa tua mãe que ando forte, independente, ainda mais destemida e, finalmente, com a vida debaixo do braço. Uma felicidade ao abrir as suas fotos e ver como você anda depois de alguns anos, ter o coração sob controle e sentir o sorriso esboçado, desses de quem pensa: fomos de uma alegria insuportável enquanto durou, ainda que tudo tenha terminado em sirenes de emergência, fim de festa e alguns barracos. Guardo você num espacinho singelo por aqui que fica perto da divisão das "primeiras vezes", na divisa dos sentimentos confusos - é especial.

Demorei, é verdade, pra que esse estado sublime de amor pelo passado fosse possível. Foi necessário atravessar primeiro a raiva, depois o nojo, então alguma pena e desprezo para, só então, ter coragem de reabrir a porta do quartinho dos fundos que abriga as lembranças legais do casal amigo que fomos sem algum pé atrás e qualquer desconfiança. Contudo, foi transformadora a experiência pacífica de travar uma conversa sem mágoas arrastadas ou dores que latejam. Foi, inclusive diria, mais que o fechamento de um ciclo: o ganho de um passe pra que se viaje em paz e visite locais sem medo do outro, de repente, aparecer.

Ambos temos esse problema em costurar passados e dar o ponto final, você sabe. Ainda no último minuto, perdedores da partida desastrosa em final de campeonato que foi a prorrogação do nosso relacionamento, havia todas aquelas promessas de futuro possível, reencontro alguns anos mais tarde, eterno primeiro amor - todas palavras impossíveis, eu hoje jamais voltaria a morar em Porto Alegre, você frequenta baladas que nunca satisfariam meu apreço musical.

Ainda assim, esses dias eu consegui sentir carinho por você; desses quase fraternais, que a gente olha pra linha do tempo real e fica feliz ao assistir duas crianças descobrirem a não-inocência dos amores que se partem. Essa ferida, até que suturamos bem, não é? A luz daquele cômodo cheio dos jovenzinhos idealistas que fomos ficou acesa, você já embarcou em outra e eu estou à caminho de, à quase mil quilômetros, ser feliz aqui também. Ainda bem.

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