Só tenho amiga louca (ainda bem)

10.13.2015 -

"Eu aguentei até a sua pior fase", foi a frase que me fez parar de ler aquela mensagem cheia de ódio e ressentimento sem vomitar. Que tipo de amiga "aguenta" a sua crise como quem carrega uma pedra de 200 kg nas costas ao invés de estar na balada? Talvez vocês estejam daí, do alto de seus tronos de julgamento cheio de moralidade: mas quem diabos não deseja uma amizade dessas, onde uma suporta o lado negro da outra, onde fulano detesta as crises deprês de ciclano mas, fazer o quê, segue ali? Eu, euzíssima levanto os cinco dedos das duas mãos e, mais uma vez, choco a sociedade - ser miga aqui é um amor durável apenas quando a loucura compõe parte do dna, e não é motivo de chantagem emocional ou soco no estômago em momento de d.r.

Analiso minhas amigas de anos e, incrível ou não, a maioria delas é tão parecida comigo de maneiras tão incongruentes quanto surreais que nem ao menos me choco. Há o gosto pela estética, as discussões sobre boa música, dicas intermináveis de diretores e filmes, idas a lojas de departamento enquanto o relógio atrasa as horas, crises de autoestima, abismos existenciais, boys, boys e mais boys na pauta, sempre. Todas possuem um tal gene recessivo ao tédio, a maioria delas prefere, com orgulho e louvor, se enfiar em burradas e meter pés, mãos e a cabeça na jaca a ver sua futura biografia sem páginas e mais páginas de aventuras descabidas. É das loucas que eu gosto mais, é nas freaks que me reconheço, só me esforço pra manter do lado quem menos me julgue e mais compreenda cada acesso de sandice que, mais cedo ou mais tarde, se fará presente numa tarde de quinta-feira nebulosa. 

Por favor, não me levem à mal as santificadas das boas maneiras, os pequenos anjos enviados à Terra para penar sem excessos de álcool, sexo ou remédios. Nada contra as meninas perfeitinhas que dizem tudo na hora certa, agem pouco, mantém mistérios e se escondem sob um véu de esposinhas maravilhosas feitas para casar, levar à sério, apresentar para a família. Porém: como entenderão vocês, ó imaculadas mocinhas, o meu desejo que queima e arde antes que eu mesma consiga apagar o fogo? Em que brecha vocês estarão aptas a ver o mundo menos com olhos de quem visita o oftalmologista de três em três meses e mais como quem usa algum desses óculos coloridos em formato de coração dos anos 70? Pelo amor de deus, me respondam dizendo que vocês entendem que não é por mal, é apenas mais uma dessas paixões que arrefecem cedo demais por não dar liga, não pegar embalo, ver as diferenças se tornarem maiores que qualquer primeira saída bacana onde vimos uma amiga em potencial se apresentar para o fronte.

Quase respondi: Eu aguentei tanto nada acontecendo na sua vida, eu consegui suportar os conselhos mais beges já ouvidos de não ir pra cama com fulano ou beber menos e até mesmo as lições de moral que mina que mora no meu coração nenhuma nunca cogitou me dar - e nisso, incluo minha mãe. Sustentei a sua pose de menina equilibrada que seduz meio mundo mas insiste em não pegar ninguém, lidei até que bem com a sua não-alimentação, os egoísmos de menina mimada que exige prontidão às nove da manhã num sábado e reclama uma festa inteira sobre iluminações, setlists e outras garotas embriagadas.

Só tenho amiga louca, companheiras de copo doidas de pedra, moças com quem divido almoços cheias de irracionalidade no currículo. Talvez isso não seja pré-requisito a uma primeira vista, mas com certeza é prova eliminatória para ver quem ganha o pódio, o posto, a medalha de honra-insana; tem mais em meu seleto grupo de bruxas-dodóis-imprudentes quem ria dos impropérios da noite passada que quem condene uma fatia de loucura que saiu pelas beiradas, sem querer, fugitiva. Ainda bem.




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