Mas, por favor, não seja chato

10.18.2015 -


De verdade, de coraçãozinho: peço encarecidamente que você não se torne um chato. Os chatos tem a mania insuportável de acordar outras pessoas às 9h da manhã de um sábado com chatices totalmente inventadas. E enviam duzentas mensagens para que você responda logo, uma vez que nem ao menos a primeira você visualizou e digitou qualquer desculpa. Podem vir a incluir qualquer minúscula crítica em algo grandioso para você, afinal, mala que é mala não deve de maneira nenhuma elogiar apenas - é preciso espalhar um pouco deste elixir brochante no cotidiano alheio, verdade.

Por favor, não opte pela barca inóspita dos que demoram a comer, caminham devagar e voltam ao caixa do supermercado para reclamar o preço de um dos duzentos produtos do rancho que fez, que era menor na prateleira. Esqueça os barracos aborrecedores em redes de fast-food onde o atendimento é péssimo, pare agora de querer marcar território todo santo dia nas redes sociais do boy que mal conheceu. Aprenda que escutar o torna menos enfadonho e interromper pessoas é sinônimo de azucrinação. Em hipótese alguma ligue. Você pode ser escroto, lixo humano, uma múmia ou um neurótico de carteirinha. Mas, por favor, não se junto aos chatos - eu suplico!

Chatos que enfrentam filas, chatos que comem de boca aberta, chatos que empurram no metrô, chatos que escutam a conversa alheia e dão palpite, chatos que invadem qualquer privacidade e reclamam em baladas lotadas e emburram em teatros ótimos e envelhecem o nosso dia em algumas horas, tão insustentável se torna a leveza da convivência. Chatos podem usar disfarces de jovens descontraídos, chatos têm dificuldade em decidir algo sozinhos, chatos infestam nossas tardes com egoísmo e pequenos murmurinhos, galochas e tempo nublado com altas temperaturas.

Há algum prazer na chatice crônica: desabotoar pazes bem alinhavadas, jogar água no castelinho milimetricamente construído de espíritos tranquilos. Uma vez contaminados com o entediante da chateação sem cura, contraímos também um pouco de tédio e desgosto para borrifar por aí. A meu favor posso dizer que minhas insuportabilidades são pessoas e intransferíveis: atropelo situações, demoro cerca de 45 minutos para me arrumar antes de sair, perco um bocado de timing em conversas com pessoas demais, morro de sono.


1 Comentários:

  1. A chatice é involuntária, mas tem algumas que conseguimos perder, nos livrar e evitar. Beijo

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