Eu sei o que você escreveu no verão passado

10.21.2015 -

Sejamos francos aqui: você era a mesma pessoa que é hoje na estação do sol, do mar, do calor e dos picolés do ano passado? Posso errar o alvo, mas acredito que muitas ideias foram renovadas, caminhos retraçados, planos desfeitos e desconstruções realizadas. Se há algo de bom em envelhecer, certamente podemos apontar, ainda que vendados, a sabedoria como grande presente do tempo, certo? A verdade é que já escrevi algumas merdas. E, por mais que hoje desejasse as picotar em zilhões de pedacinhos e ver fluírem através do vento, aprendi a aceitar também meu passado machistinha, quadrado e lotado de pré-conceitos nada fundamentados.

Já falei que moças deveriam usar apenas cabelo comprido? Já. Já chamei outras garotas de piriguete em textos publicados aqui mesmo? Também. Assim como acreditava que apenas o padrão que eu vejo como beleza deveria ser o vigente e que todas as outras meninas do universo significavam alguma concorrência para mim. Teve também vezes em que me expressei - dessa vez, verbalmente - contra cotas raciais, à favor de certos políticos que hoje me enojam e nada favorável ao aborto. Engraçado, afinal, minha posição sobre cada um destes temas atualmente é o oposto, praticamente. Estudar em colégios caros da capital gaúcha, pelo visto, não me salvou de ser uma mocinha de ideias medíocres ao receber o canudo do Ensino Médio. 

Como em muitas searas dessa vida, há em um canto a vergonha por defecar pelos dedos e boca quando jovem demais e com opiniões em larga escala; noutro, certo alívio e alguma compaixão pela mina ingênua e manipulada que um dia já fui. Comecei um namoro, vivi os altos e baixos de um amor desde seu nascimento até o surto do primeiro fim, conheci diversos caras, vi inúmeros pintos, troquei de graduação, voltei à paixão antiga pelo Jornalismo, me relacionei com pessoas de cidades que antes nunca havia ouvido falar, quebrei barreiras próprias e pude ampliar minha mente de um modo que nem todos conseguem - ou, tem a possibilidade de. No final das contas, alguma rota aquela versão minha minimizada em pensamento traçou pra que eu chegasse até aqui.

Sou grata às roubadas em que me enfiei e acredito piamente que cada uma delas aterrissou no momento cronometrado para me ensinar a lição que deveria. É bizarro, mas atraímos. Eu sei que só escrevi porcaria uns verões atrás - ano passado já andava sã e sabida, vai - mas, vocês ainda me amam se disser que cogito cortar um long bob assim que minha franja crescer, sou entusiasta das cotas, piriguete de carteirinha e pró-aborto? Deem um abraço, vem cá que a Camila do futuro ainda pode vir a usar calças, aprender a dirigir ou comer melancia, caso a vida ensine.



1 Comentários:

  1. Umas coisas eu aprendi do ano passado pra cá: que tudo na vida é aprendizado, sofrimento faz parte e a dor foi feita para ser sentida. Tudo vai se ajeitando, devagar e sempre. Beijos

    http://mundodenati.blogspot.com.br/2015/10/escolhas.html

    ResponderExcluir