Alícia não vai à escola

10.09.2015 -


Me embanano sempre quando alguém questiona em que série Alícia está ou quantos anos, exatamente, ela tem. À primeira vista talvez pareça irresponsabilidade de irmã mais velha que vive longe, mas é simplesmente porque a caçula lá de casa é composta de diversos outros fatores: os desenhos lindos que me envia pelo correio, as palavras novas que aprende em inglês, o sorriso de ficar quase em olhinhos e uma puberdade que daqui uns dias deve chegar. Minha irmã menor é menos obviedade e bem mais fã dos conhecimentos subjetivos. Dependendo da pessoa, digo que ela tem quase onze anos e está na quarta série; dependendo da humanidade alheia, explico.

Como medir uma criança? Por sua altura? Por seu peso? Pela sua idade? Pela quantidade de amigos? Por seu rendimento escolar? Desde fevereiro deste ano, Alícia não vai à escola. Um pouco por opção dela, outro tanto por decisão dos meus pais. E por mais que isso ainda não seja regulamentado ainda em termos de Brasil, posso dizer que vejo em nossas conversas uma menina de autoestima muito mais ampla, ainda mais esperta e feliz em cumprir suas atividades diárias - a gramática melhorou consideravelmente, assim como raciocínio lógico. O sistema escolar funciona para todos? Infelizmente, não. É arcaico? Pra caramba - afinal, funciona mais ou menos como é hoje em dia desde o século XVIII, se não me engano. Deveríamos estar pensando em novos modos de educação? Tenho cada vez mais convicção que sim.

A escola, que funcionou muitíssimo bem para mim quando em idade letiva, já não se aplicava no início dos anos 2000 de forma tão completa e agregadora para uma dúzia de colegas: os que possuíam algum déficit de atenção, aqueles que eram tímidos demais e esquecidos no fundo da classe pela professora, outras crianças com dificuldades de ensino, relacionamento, adaptação. Vocês podem estar se perguntando, aí dentro: como ela estuda hoje em dia? E a socialização? Há diversas outras formas que não o aprendizado que conhecemos, em sala de aula, um grupo de 25-30 alunos, enfileirados um frente ao outro. Desescolarizar, quem sabe, seja uma via segura para crianças e jovens que cabem apertadas demais dentro dessas caixas que incluem horários abusivos, uniformes obrigatórios e livros e mais livros usados pouquíssimas vezes durante as lições.

Alícia faz um misto de unschooling com homeschooling: um pouco, é educada em casa. Os conteúdos que faltam ela vê com professores, grupos de estudo com outros alunos, em projetos paralelos e ao assistir filmes, ler livros, ir a museus e até mesmo parques. Inicialmente, ela estudaria na Escola da Ponte, que (ainda) não abriu no Rio Grande do Sul. Confesso que eu, que sempre estudei em bons e tradicionais colégios (mérito dos meus pais, sim) tomei um susto quando me foi dito que ela seguiria este padrão. Passado o choque, consegui compreender que cada um possui um ritmo, uma personalidade e que fazia todo sentido que minha mãe buscasse alguma forma alternativa para que a sua terceira filha aprendesse; mas aprender de verdade, e não com teoremas, decoreba e uma prova atrás da outra.

Gosto de comentar que meus pais raramente seguem padrões: optaram por prosseguir com a minha gravidez, ambos jovenzinhos, casaram quando eu tinha apenas 9 anos, estão ficando cada vez mais hippies com o passar do tempo - têm cogitado trocar a vida "agitada" de Porto Alegre pela suavidade do interior, o que eu acho a cara de ambos. Alícia não vai à escola, de qualquer modo, mas aprende e se encanta com o universo que a cerca: os nomes das plantas de praças, os sistemas funcionais do corpo humano, as quantidades e fatores de soma, diminuição, multiplicação, quando em contato com as compras e vendas da família. Eu costumava me achar a mais corajosa do clã, saí de casa, me viro tão distante; que nada - precisa ser muito destemido pra romper com modelos há tanto estabelecidos. Consigo desembaraçar rapidinho de onde tirei essa certa rebeldia, também: de família. Se já tive alguma dúvida, hoje sinto orgulho.





6 Comentários:

  1. Coitado de ti...com esse pensamento!

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  2. Esse BRAVO deve ser pra assustar...COITADO!

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  3. A Alícia certamente terá muito a nos ensinar!

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  4. A Alícia certamente terá muito a nos ensinar!

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  5. A Alícia certamente terá muito a nos ensinar!

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