Você dorme bem quando dorme com ele?

9.30.2015 -

"Mas, quando você dorme lá, na casa dele. Você dorme bem?", ela me perguntou. Engraçado que, a maioria das minhas grandes amigas, é mais velha - talvez uma herança da mania de querer desesperadamente chegar à adultice e ouvir demais da mãe quando criança "Tá, Camila, agora vai brincar um pouco que isso não é assunto de criança". Miúda demais pras conversas de gente grande, aprendi a me enfiar, ainda que escondida, para ouvir os assuntos dos mais velhos. Já maior de idade, cansei logo das amigas que tinham tão pouca experiência a me acrescentar.

Voltemos à pergunta que pesou o tempo naquele fim de tarde, uns cinco anos lá atrás. Eu dormia bem quando pegava no sono ao lado dele? Bem, não. Estávamos as duas amorosamente entusiasmadas naquela fase: ela, vivendo um amor na ponte-aérea que tinha tudo para dar mais do que certo; gostavam de bons filmes, apreciavam a mesma música e o sexo era incrível. 

Eu iniciava um affair que durou um tempo com um aspirante a jogador de futebol do time adversário ao meu Grêmio; tínhamos opiniões incongruentes sobre quase tudo, ele adorava sertanejo e eu ia apenas em baladas indies, a maioria das obras cinematográficas que eu adorava, ele nem ao menos conhecia. A química, contudo era ótima - aliás, me arrisco a dizer que era o que salvava aquela pseudo-relação. 

Caía no sono sossegada e calma quando dormia no Menino Deus? Que nada, pelo contrário. E foi esse alerta que comecei a observar toda vez que outro novo wannabe-qualquer-coisa cruzava o meu caminho. Se foi bruxaria dela ou mera sabedoria, chuto o segundo palpite. Como levar adiante um romance onde não se desfalece relaxada ao lado do moço, hein?

Comecei a notar: com todos os homens que passei mais de cinco noites, ria além da conta, sentia a liberdade de mostrar superfícies minhas não tão planas, soltava bichos, feras e papas da língua sem aspas nem ponto e, adormecia tranquila. Por horas. Sem zilhões de pensamentos confusos no meio da noite, sem levantar trinta vezes para ir ao banheiro, com o coraçãozinho fleumático, os batimentos ritmados, calminho. Acordava também descansada, as ideias no lugar, nenhuma certeza fora do barco. Foi aí que passei a levar essa máxima com seriedade.

Ei, você aí que tá saindo com boy novo, observe: você dorme bem quando dorme com ele? Sim, claro, às vezes, talvez. Você coloca a camiseta dele para pegar no sono e, de repente, rola uma insegurança que mata o ócio? Há segurança suficiente aí dentro para conseguir ser essa maravilhosidade toda que você, de fato, é assim que ele baba no travesseiro feito criança? Comece a notar se há, além do fogo, paz e acima de qualquer afinidades, conforto. Poucos amores duram tanto sem se conseguir sonhar, ainda que por algumas horinhas. 

A minha amiga hibernava ao lado do rapaz que ora estava em Porto Alegre, ora voltava pra cidade enorme onde residia. Não que eles ainda estejam juntos até hoje, mas posso dizer que foram felizes pra cacete enquanto a fábula durou. Acho que o que realmente importa é, na cama, querer mais cinco minutinhos.



2 Comentários:

  1. Teus textos sempre maravilhosos e nos fazendo refletir.
    Ótimo texto, como sempre. ♥

    (Comentando “à moda antiga”, pelo próprio painel do blog, sim :)

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  2. Oiiiee!! Eu adooooorei o teu texto. Acho que eu durmo mal quando nao durmo com ele.. HAHAHAHA (bom sinal). Realmente precisamos do boy magia pra dormirmos bem tambem. Parabens pelo texto, adoro a forma como voce escreve. Beijinhos

    http://www.verdadeescrita.com/por-ai-ainda-existe-saudade/

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