Prazer, trouxa.

9.28.2015 -


Se me apertar os impulsos, vou correr atrás. Se desejar de todo coração, é bem provável que me declare antes do café da manhã. E caso bata os olhos e sinta todas as borboletas se remexer no fundo falso da barriga, tomo a iniciativa - sem medo, burocracia ou primeiras intenções: pergunto nomes, puxo conversa, desenrolo a melhor das minhas performances. Ao meu ver, otimista, essa é uma faceta onde me permito ser corajosa, intensa, romântica. Para uma galerinha do mal por aí, contudo: prazer, trouxa.

O meu time sempre foi o dos azarados do bem: mesmo com a melhor dos quereres, às vezes atropelo sentimentos e acelero fases. Improviso palavras e autentico esquetes. No fim das contas, o dar de ombros e a conformidade em apenas uma palavra: azar; parto pra próxima sem nem ao menos me despedir. E fico triste toda vez que diminuem o amor, que apedrejam o bonito de algo que pode ser tão luz e tão pouco inferno em alguém. 

Experimente demonstrar um viés, um tequinho, um milímetro que seja numa conversa de bar o seu peito motorizado à vapor, a sua ingenuidade profissional, alguma das tantas ciladas amorosas onde caiu para ser resgatada por um aparente mocinho que a levaria a se esfolar de amor novamente, e por aí vai. Eles a olharão feio, haverá quem feche a cara, tem sempre alguém presente daquela alcateia onde se entregar é ridículo, se expor é pecado e ai de quem comece com discurso piegas por aqui.

O orgulho em ser racional. A altivez em não pertencer a essa doença tão sem precedentes, quiçá lógica. Toda essa maluquice evitada para viver vidas regradas e cheinhas de solidão, superfícies rasinhas, conversas banais. Pra que diabos arriscar? Ao fazer as contas, a ameaça da vulnerabilidade é gritante. Burros os que se jogam em águas duvidosas, perdedores estes que deixam a esbórnia e o não-apego atrás de l'amour, essa utopia. 

A tendência é esconder qualquer afeto sob sete chaves atrás de qualquer outro órgão onde não se encontre sóbrio, menos ainda embriagado e de telefone em mãos. E trouxas nós, que insistimos em crer num saudosismo de mãozinhas dadas e velhices conjuntas. Que outro adjetivo se não trouxa essa gangue pró-afeição que se recusa a participar do cartel blasé onde a magia contaminadora de dois olhares raramente pega? Trouxas todos esses que sorriem ao ver uma mensagem chegar e passam o dia breacos de êxtase porque talvez seja ele, pode ser que seja esse, vai ser ótimo caso sim. 

Trouxa de mim que choro em botecos e me declaro tão cedo, mudo de cidade por não saber conviver comigo tristonha a quase mil quilômetros de distância. Trouxa dele que estaciona o carro sob uma árvore na sombra e diz: eu quero entrar dentro de você. Trouxa o resto do mundo, que perde esse segundo onde ele penetra a camada mais funda em mim e nem é fisicamente; vocês nem imaginam o que estão perdendo. Prazer, trouxa.




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