Pai,

9.19.2015 -


Por que a gente mal se fala, pai? Tudo bem, tudo bem que tivemos um zilhão de brigas passionais e momento descontrolados ainda quando morávamos juntos. Mas e as cervejas, e vinhos e roques e jogos de futebol compartilhados? O importante é que sempre tinha Madonna e Neil Young, Grêmio e vinho barato da Serra Gaúcha, cerveja e a melhor pipoca de panela do mundo - a sua.

Pai, eu entendo: a frieza da vó, a falta de tempo do vô, o número extenso de irmãos meninos disputando carinho dentro dessa equação toda. Então, o amor precoce com a mãe, o meu nascimento ainda com você tão jovem, a some de filhos que veio depois. Os negócios, que um dia foram tão bem, hoje já estão capengas; o comércio, essa expansão dos anos 90. A loja anda meio vazia de malas onde poderia fazer, tal qual uns vinte anos atrás, cabanas cujo teto era feito de guarda-chuvas enormes. Uma tristeza.

Há esses dias, em que questiono a falta de ligações, a inexistência de mensagens e o buraco masculino que você esvazia quando opta pela solidão que só os lobos rebeldes compreendem. Eu sempre fui mais parecida com você e, talvez por isso, te perdoe com tanta facilidade, assim como também busco de maneira até incansável alguém que supra esse quarto escuro. Eles quase nunca têm o seu senso de humor, amam verde e sabem beber como a gente. O gosto musical quase nunca é compatível. Tenho quase aceitado que talvez seja melhor ficar sozinha.

Hoje é sábado. Não tenho nenhum plano diferente de torcer pro tricolor dos pampas, treinar minha pipoca numa panelinha pequena (apenas pra mim) e beber Amstel Lager que comprei pela manhã no super. Saudade é um troço passional, subjetivo - e diário.



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