Nunca seremos Jéssica

9.29.2015 -
De repente, me vi digitando para a minha melhor amiga: a gente nunca vai ser a Jéssica. Sutil, direta, simples: pra gente, esse benefício dadivoso não vai rolar, gata. Nos falta propensão, deu defeito na hora do parto, nascemos ambas sem o componente do DNA que faz os caras caírem de quatro e pedirem em namoro assim, às pressas, como quem precisa desesperadamente viver. Enquanto ela inicia mais um felizes para sempre, nós duas discutimos nossos fracassos românticos como duas pedintes analisam as sacolas do mercado alheia: com alguma inveja - ainda que, branca - e qualquer esperança de, quem sabe, um dia aí, ter a sorte de se sentir um pouquinho Jé.

A Jéssica, não imaginem vocês uma mistura de Megan Fox com Scarlett Johansson. Nada disso: beleza? Mediana. Engraçada, mas nada que faça a barriga doer de rir e as ideias se dissipar pra uma outra galáxia longínqua. Um bocado tímida, dona de cabelos escuros e a própria nem gorda, nem magra, nem lisa, nem ondulada, com algumas sardas e looks bastante blasés. E só.

É vista por aí lendo em ônibus circulares e comendo sorvete pelas tardes quentes da cidade. Banal a primeira vista, porém, proprietária de alguma feitiçaria que faz os rapazes se jogarem a seus pés e emanarem juras de amor logo após o terceiro encontro. Jéssica embala namoro atrás de namoro e, consegue sair amiga de todos os falecidos e queridinha pelas antigas sogras. É tanto (suposto) mistério que ninguém resiste - mal sabe o mundo que isso, é possível, esteja longe de ser um enigma; talvez seja apenas monotonia.

Se a visse por aí, aposto que você pensaria: mas, ué, o que tem essa menina de tão especial? Falta personalidade em meio a tanta calça jeans, sobra paciência e silêncio junto a toda uma santa paz inabalável, é a soma da passividade tão benquista pelos homens com a certeza de que, se não der certo esse, tudo bem, acho outro num estalar de dedos. Acontece que ela fala pouco, senta ereta, desiste de discutir seus pontos e aposta todas as fichas no próximo - cara, da fila.

Somos entediadas, decisivas, eloquentes, vulneráveis. Queremos hoje pra segunda-feira não fazer questão. Afobamos conversas, antecipamos sins e nãos e tempos pouquíssima paciência para ver brotar girassóis que morrerão por falta d'água na semana seguinte. É preciso de pouco sol e a vida em banho-maria pra sobreviver em meio ao soro líquido dos amores efêmeros. A gente devia é agradecer antes de dormir por ter recebido outros nomes.



1 Comentários:

  1. É triste que sejamos ensinadas desde novinhas a sermos tudo que supostamente agradaria os homens e não o que agrada a nós mesmas. Abrir os olhos e se livrar dessas amarras é maravilhoso e libertador e só posso desejar que as próximas gerações venham com muito menos "Jéssicas" e mais mulheres cheias de amor-próprio e autossuficientes que vivem para si mesmas.
    Adorei o texto <3

    Beijo!

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