Fofura do dia: seu Zé

9.23.2015 -

O seu Zé é o porteiro da noite aqui do prédio. Entre as fofices que ele já desempenhou, estão: o dia em que ele me ofereceu um pedação da pizza que tinha ganhado - e quase me obrigou a sair da dieta - e outro quando elogiou minha jaqueta de couro num dia frio demais. Ah! Ele também já compartilhou comigo a tristeza do último capítulo de qualquer novela que assistia na Band (único canal que pega na tevêzinha da bancada onde fica) e algumas lembranças do seu Nordeste. É uma peça rara.
Hoje cheguei do trabalho e o vi concentrado. Cheguei mais perto, larguei a sacola de papel pardo que carregava no colo e fui em busca da chave do apê. Vi que ele fazia contas: das mais simplinhas, de subtração, soma e multiplicação. Pensei em não falar nada. Não me contive, pra variar:
"Tá estudando, seu Zé?"
"Tô sim, voltei pra escola!".
(Ele sorriu, eu sorri primeiro por dentro e depois fisicamente, confesso)
"Poxa, que bacana. É perto de onde tu mora?"
"Ish, é nada, é lá no Cambuci. Mas eu não perco um dia só!"
"Isso aí, gostei de ver!"
"Sabe, esse ano eu vou fazer a terceira e a quarta série. Daí ano que vem a quinta e a sexta, depois sétima e oitava, e assim vai indo. Quero fazer mestrado e doutorado!"
(Tudo isso enquanto o elevador não chegava. Descendo do décimo terceiro até o térreo. Por mim, que não chegasse nunca mesmo. Eu tava realmente maravilhada em ver alguém tão apaixonado por uma matéria que quem teve todas as oportunidades possíveis de aprender desdenha por aí)
"Uau, que ótimo! Já sabe em que?"
"Ish, sei não, mas eu vou descobrir! Meu sobrinhos são tudo médico, engenheiro, esse ano quando eu 'subir' de avião vou tá sabendo tudo!"
"Boa, gostei de ver! Bons estudos, seu Zé!"
Chega o elevador. Preciso me despedir e subir (pra minha casa), ele precisa voltar a tentar descobrir quanto é 875 menos 230. Se deus existe mesmo, ele com certeza esfrega a felicidade de gente simples na cara de quem ainda se digna a reclamar, do pedestal dos privilégios (sim, euzinha). Seu Zé, eu esqueci de dizer, mas o "senhô" já tem diploma de fofo do ano e ensinante de realidades por aqui, viu?





2 Comentários:

  1. É pra ganhar o dia uma história dessas, né? Acho que todas as pessoas tem alguma coisa pra inspirar a gente. Seja pra ver a vida mais positivamente, rever nossos próprios privilégios ou lutar por um mundo onde todos os "Seu Zé" tenham as mesmas oportunidades desde cedo. Ou tudo isso! haha

    Beijo!

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  2. É bom te ver escrevendo sobre cotidiano e deixando qualquer trivialidade com a qualidade de uma crônica/conto premiado(a).

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