Escreve aí, rapidinho.

9.02.2015 -
Colagem de Toshiaki Ushida 


Sério. Para o que tiver fazendo e escreve. Qualquer coisa, vai. É rapidinho. Poxa, responde aquela carta pra sua avó, que há dois anos canta a pedra que esse natal vai ser último e continua mais viva que cusco bem adotado. Fala umas frases bonitas pra sua mãe nem que seja via mensagem instantânea. Liga pro seu amigo pra contar sobre a desgraça em forma de almoço que o pessoal do refeitório teve a ideia de preparar hoje. Vai doer nada, vai ser ótimo, quiçá você elimine alguns quilos de preocupação, pode ser libertador.

Na boa, digita agora. Já. Faz quanto tempo que você não decifra as letrinhas em forma do seu pai para descobrir o enigma oculto sob cada reclamação? Deixa um bilhetinho azul no bar da sua casa, no sofá atrás daquela almofada pra moça que limpa achar e ganhar o dia, cola na geladeira um coração desenhado que seja com as iniciais da sua mina, tá valendo. Mas, por favor, escreve. Em Times New Roman, Comic Sans, num bloquinho sujo de café que fica na cabeceira da cama. E-s-c-r-e-v-e.

Traça um plano e depois some com ele, grafa a sua marca, ainda que ela dure só até semana que vem. Registra o número de vezes que pensou nela, enumera as piadas ruins da sua melhor amiga. Anota aquele endereço - e o outro telefone, e a sua nova senha, o protocolo que a atendente diz -, compõe qualquer poesia; triste, sem métrica, de rima pobre ou rica, pode até deixar incompleta. Narra o seu banho, conta como amanheceu a quinta, escreve.

O que você tá sentindo. Aquele pensamento que grudou na janela do ônibus. A descrição da saia daquela senhora que usava uma mochila muito psicodélica perto do metrô São Joaquim; era verde e depois púrpura, fúcsia e então vermelho, amarelo sol com o branco que mistura todas as cores dentro. Passa a sua raiva pro papel. Filtra os sonhos na caneta de tinta preta. Pode esconder da humanidade e fingir que foi apenas um surto. Vale rasgar depois, se a cólera tomar conta. Mas, escreve. Expele. Desnuda. É rapidinho. 



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