André,

9.27.2015 -


Quando foi que houve essa virada no tempo e você começou a me tratar tão, tão mal? Há dias cinzentos onde acordo com a névoa e, enquanto caminho e bebo chá pelo apartamento, essa dúvida surge - junto a umas irmãs insuportáveis, como "Vai ser sempre esse romance lixo entre nós dois?" e "Ele não se sente mal, nem um pouquinho?"- e me corrói um pouco antes de ir trabalhar. Foi só sexo, diz a minha amiga. Se os fatos não tivessem rolado tão naturais e de pronta vontade, até apostaria minhas fichas em tanta racionalidade. A real é que adoraria respostas que você, escorregadio, assustado com a velocidade das minhas palavras, sempre fica por dizer.

Teve o beijo logo no primeiro semáforo fechado - eu e meu problema com sinais vermelhos e detalhes ultra-focados. Teve umas conversas onde você elogiou o meu progresso e os pés fincados no concreto paulista. Até algum carinho pela manhã: depois do cansaço, cada um jogado em um canto da cama; calor, exaustão, respiros prolongados. As suas unhas passando de leve sob o lombo das minhas costelas, aparentes, nuas. Se não foi um suspiro de amor, um segundo onde você conseguiu esquecer que sente pena e raiva de mim e eu não lembrei das escrotidões que você aprontou. Foi lindo sentir nossa pele conversar numa linguagem tão específica, tanto tempo à base de maus tratos, os corpos há mais de ano sem se assistir.

Então: carência, tédio, tesão? Uma pequena morte onde ressurgiremos em algum reencontro nos anos mais para frente - você arrependido por não ter se bem aproveitado da minha energia jovial e eu certamente segura, tantos caras depois, quem sabe assentada com alguém que me devote paz e café da manhã. Por que diabos tudo tão bem e, de fininho, a sua pior versão de intelectual trabalhador que vence na vida avisa que é melhor manter distância, tal qual fosse eu um cão raivoso, qualquer paciente com lepra amorosa em estágio avançado - o que é engraçado, afinal, se tinha alguma saudade viva em mim, ela era do seu pau -, você sabe? 

É louco que, talvez, sempre exista a distância entre nós dois: mudei pra cá um pouco pra ver no que dava ficar mais perto e ter dias incríveis perto de você, que agora se divide entre aqui e a terrinha do "ora, pois". É doloroso achar que poderia existir qualquer carinho, admiração ou bom senso entre nós - e ver decolar, pela enésima vez, minha tentativa pra que tudo fique bem e a gente não se odeie. Aquele "Tá louca, menina?" assim que vi o carro chegar perto da minha esquina resume bem demais todas as proporções com que você me mede; foi eu rasurar os limites uma vez sequer, sem tratamento, e nunca mais os seus olhos voltarão a me enxergar como a "namoradinha gata do Sul", que é nova mas manja horrores de cultura, história da músicas, tendências de moda. 

Há dias em que acordo e perdoo você de tanta burrice - sim, burrice, como chamei a recusa do nosso fim na omeleteria do Itaim Bibi, como volto a nomear esse afastamento sem explicação. Medo do apego? Pavor das loucuras de uma hora e outra? Falta de paciência frente a tanta sensibilidade? Decidi enfiar ainda mais a cara no trabalho e começar a correr pela Av. Paulista, pra ver se desencano, faço uma grana, não enlouqueço. Há noites em que quase questiono, pela última vez, pra onde foi aquela paixão que quase nos deixou doente, se é assim com todas, como cultivar tanta frieza sem congelar. Desisto. Por ora, torço pra que esse ponto final se torna um outro nome próprio bonito pra que eu coloque em título de texto e chame pelo diminutivo. Pra sempre, sei que vou voltar a ter seis anos de idade e acreditar em milagres toda vez que a gente se ver. 



0 Comentários:

Postar um comentário