Acordei meio libriana

9.20.2015 -

Hoje tive certeza: vou morrer sozinha. O sol à pino dilacerando as costas e roçando as coxas, a avenida Paulista lotada de casais que seguravam mãos, se enganchavam em esquinas de trânsito corrente e sorriam um para o outro por ter se encontrado de bobeira na vida. A única coisa que eu carregava era uma sacolinha plástica com remédios, a bolsa vermelha em couro à tiracolo, um mau humor do cão, tantos os amores esfregados na fuça, arreganhados de tesão em pleno meio-dia de sábado da cidade grande.

Quem diabos carregaria minhas sacolas cheias de roupas com cheirinho de recém comprados? Que cara aguentaria firme e forte a maré de surtos que a minha condição maleável traz junto do brilho de ser incansável? Existe alguém por aí, fabricado sob medida e feito à mão para segurar o tranco das manhãs ranzinzas e os chorinhos de angústia em finais de semana que chove? Tudo bem que minha criatividade acima da média e desejo de surpreender de quem tem Marte em Aquário fazem da convivência uma aventura diária, em constante transformação e rebeldia. Contudo: há número considerável de marujos dispostos a testar a arte do afeto sem cair na cafonice?

Deus, eu peço só uma prova. Uma confirmação, um recado, uma luz. Se está vivo ele, essa coisinha que anda por aí com minas não tão inventivas quanto eu, falantes quanto eu, perturbadas quanto eu, avisa que tá na hora do encontro que eu vou ali me aprontar. Caso ele viva por aqui, nos cruze pelo metrô, faça com que esbarremos no mesmo lugar de trabalho, ou enquanto saio do meu bar favorito e ele chega - eu fico para umas biritas a mais, sem problemas. Avise logo antes que essa certeza se perpetue e me torne dessas moças jovens que aparentam mais idade e criticam garotas livres que andam por aí vestidas como quem valoriza as curvas.

Se o amor for uma verdade consistente, como tenho constatado e sendo obrigada a engolir - sem chorar - em todas as redes sociais por aí, espana essa certeza pessimista, acalme o meu coração turbulento e mente ligada nos 220 volts, tire ele da cartola e trago de volta em menos de sete dias esse sossego que nunca tive. Talvez eu morra acompanhada, as mãos juntinhas, cada um em sua maca de hospital particular; uns minutinhos antes, porém, que sou ansiosa e prefiro ir antes, com a certeza de ter conhecido essa tão celebrada paz.



2 Comentários:

  1. Sou de gêmeos mas pelo visto estou nesse mesmo estado! kkkk Adorei o texto!!!

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  2. sou libriana - que facadinha no peito!

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