Henrique,

8.19.2015 -
Colagem de Eugenia Loli



Tenho minhas ressalvas se o domingo piora tudo ou se isso é tristeza mesmo. Ontem quando pedi que você fosse embora eu desabei depois como uma criança de cinco anos porque nunca chega a vez dela de ser ajudante do dia na escolinha. Adianta pouquíssimo ser perita em mergulhos cavados num rolê onde o must have é cada vez mais superficial. 

É engraçado porque você quis muito sair comigo por uns dias e tentou enquanto eu nem sabia que você era tão gato ao vivo. É irônico justamente porque eu resolvo fácil minhas paixões, sempre tão fugazes e tortas: gostei do seu charme de homem quieto que mal troca olhares no bar, questionei Ivanildo, o garçom camarada de sempre, descobri o nome do seu amigo e poucas horas depois nos reconhecemos daquele encontro onde nenhum de nós nunca compareceu. Vi até certo misticismo em uma lua nova que talvez juntasse dois quereres de uma vez por todas. Mal sabia eu que era só mais um rasinho desses onde eu molharia os pés e voltaria a dormir sem saciar o calor colorido de coisa nova em andamento. 

A gente foi num bar que adoro, nós dois seguimos bebendo qualquer coisa na rua porque estava mais fresquinho e fazia milênios que não via naturalidade tanto nos meus atos quanto nos dos caras (coxinhas) que habitualmente saio. Mas, pra variar, é só eu ligar um pouquinho o botão "tô afim desse rapaz" pra que ele desligue a luzinha verde de "desafio cumprido"e mais um jogo de gato e rato se inicie. Afinal, se não tiver a mesma química que nos incendiou, tudo: dá outro like, manda outra mensagem, flerta num bar com a próxima. Os relacionamentos, mais que líquidos, se tornaram descartáveis e facilmente substituídos - caso você não responda, outros dois ou três me entretém numa noite que prenuncia frente fria e rouba as estrelas no céu.

Escuto o barulho dos carros, sempre apressados ao cruzar a Rua da Consolação e revivo daqueles quatro ou cinco minutos de "Vai fechar a porta na minha cara?" e "Eu jamais faria isso, mas é melhor você ir". Não morro mais afogada na própria angustia: aprendi a verificar as condições da água antes de imergir profundezas. Naquele sábado, senti furar a barreira de uma correnteza forte que sempre me leva às barcas primeiro do prazer, depois da culpa e, por último, da solidão. Escolhi, depois de tanto me afogar, me aquietar nas ondinhas da própria praia a furar a rebentação de outrem. Caldo pós caldo, me adaptei: virei sereia.



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