Só comigo mesma

5.01.2015 -

Maturidade, escolhas, quem sabe alguma predisposição ou um dos tantos ensinamentos da vida enquanto são-paulina: dos meus maiores deleites atuais, ficar sozinha é o recém adquirido. Explico. Acomodada na capital onde nasci e cresci, não me via mais impelida a trabalhar esse espírito individual com afinco. Mesmo sem notar, eram raros meus momentos de solitude, desfrutados agora quase sempre com pouca roupa, o ventilador ligado, uma xícara de chá, água ou café do lado e filmes ou leituras na tela do Vaio rosa bebê que eu carrego pra lá e pra cá. Bem mais que me entupir de rolês que nada tem a ver comigo, aceitar sair com gente que me entendia ou forçar uma vida baladeira que descobri não ser a minha praia, estar alone é a preferência que aprendi a escolher.

Não faço ideia de como as outras pessoas funcionam, o manual alheio é dessas permissões que andam raríssimas e eu desenvolvi preguiça em chegar nessa fase. Sei que comigo, o lance opera mais ou menos assim: há as fases de querer sair pra rua, dialogar com estranhos em postos de gasolina, fazer amigas em banheiro e estar acompanhada, sempre que possível. Há outras – e me vejo absorta numa dessas – de querer me enfurnar em meu casulo, tapar até o pescoço com a coberta e transitar de pijama apenas do sofá pra cama, da cama pra cozinha, pro sofá ou pro aconchego do meu travesseiro novamente.  Quando resolvo sair e experimentar um pouco da vitamina D tão irradiada lá fora, desejo que também seja sozinha, ou como eu digo: só comigo mesma. 

Até esse distanciamento daquilo que já me era monótono, me agarrava aos pais pela manhã, em meus irmãos à noite, nos gatos assim que chegava em casa e na vovó em alguns almoços. Sem horários combinados ou qualquer pretensão, pouquíssimas vezes me vi tendo que fazer, pensar ou decidir algo all by myself. Logo que cheguei a essa metrópole tão cheia de programas, corria para usufrui-los quase sempre desacompanhada - e com vergonha alguma tanto de ir, quanto de admitir isso. Sem alguém do lado para interferir com seus humores, pitacos e exigências, pegava o metrô (e, mais tarde, aprendi, os ônibus) e lá me ia para museus, parques, avenidas importantes e feirinhas de acordo com o mood e a agenda do dia.

Era maravilhoso observar o movimento ao redor em silêncio, captar as falas alheias de conversas onde sequer fui chamada, refletir all alone para solucionar impasses e me encontrar absorta numa paz de espírito tão grande que me fazia mais forte e minha, menos menina do interior e mais cosmopolita ainda. Mesmo nessa fase de dias mais apertadinhos, tenho achado ótimo viver em comunhão com as duzentas criaturas que habitam aqui e consigo, hoje, aceitar. Aqui, sou apenas eu por mim numa batalha diária que inclui mercado, transporte, higiene, disciplina e, não menos importante mas pra fechar com chave dourada, felicidade. E é gostoso, é uma parte do processo que precisava existir pra que eu enfim amadurecesse e eu ignorava, fazia que talvez não fosse assim tão essencial. 

Acordar aos finais de semana a hora que desejo, poder ficar o dia de pijama caso queira, lavar a própria louça e saber que vai estar limpa ali pra quando precisar, sair sem rumo de bicicleta pelas ciclovias, trazer cerveja do mercado e ir buscar só de meia calça e camisetão na geladeira. Ouvir alto Angela Rorô, Paul McCartney, funk ostentação se for dia de desopressar. Desmarco programas se Don Draper me chama, reviro o Netflix numa noite de insônia, acendo incensos e falo alto com deus e ninguém julga, ainda bem. Há dias que desço o poço pois ninguém é de ferro, nada que dez horas de sono não curem. Depois volto mais minha e menos de qualquer criatura, enfeito meu portão com rosas e um aviso também: cuidado, favor não querer tanta proximidade, criatura que precisa respirar.






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