Susto

4.04.2015 -


Comi todas as pelinhas em volta das minhas unhas e troquei de roupa umas cinco vezes porque queria estar “avassaladora”, foi assim mesmo que defini para a amiga que mora comigo. Você atrasou uns minutos e eu quase desisti de ir; um coquetel de medo, remorso e ansiedade mixou dentro de mim e eu paralisei uns dois minutos até abrir a porta do elevador. O coração deu meia volta e se realocou num sorriso interno quando te vi de banco abaixado, quase dormindo e num carro estranho; fazia uns meses mas parecia que a gente tinha se visto ainda ontem. Poucas pessoas fazem me fazem sentir como se sem os sapatos, jogada no sofá depois de dia atordoado. Confortável.

Eu adoro o tesão com que você olha pros carros antigos que circulam pelo meu bairro. Como naquela vez que a gente tava muito loucos e parou um motociclista pra tentar comprar a moto do cara. Ele deu o telefone e você chegou a ligar, mas não era o modelo dos sonhos. Eu invejo o seu carisma de amizade fácil com os garçons do boteco de sempre, eu acredito na sua teoria dos faróis que acendem do vermelho ao verde rapidinho quando a gente resolve se beijar, e eu te pergunto também: quantas minas insistiriam tanto e te olhariam tão de perto e veriam um cara espirituoso, genial e boa gente por de trás desse escudo de desajuizado que você levanta? Depois de alguns atrasos e faltas e daquela vez em que eu fui um pouco louca porque você foi bem babaca, fico feliz em ainda sentar e competir tacitamente pra ver quem bebe mais enquanto a gente soluciona os problemas do mundo - não anotei em nenhum caderninho, mas o seu arrego em ter pedido o "garotinho" antes me fez vencedora da última vez.

Pra pouquíssimos caras eu perguntaria também se meus peitos aumentaram ou é TPM mesmo. De quase nenhum eu escutaria que eles estão até um pouco menores mas, que está ótimo assim. Que você inclusive prefere. Só com você eu iria de novo num karaokê na Liberdade e dançaria forró enquanto se zoa todo o resto das gentes e enche a cara. Quando você me aguenta muito curiosa e fuçando em tudo e responde que dentro do armário tem um pônei, primeiro me assusta e depois assiste sem horror a velocidade que eu troco temor por riso eu quase acredito que isso não é qualquer porcaria. Só você vê uma Camila cheia de fome, papo e toques suaves que consegue relaxar e vestir a carapuça dela própria sem pudores ou ridículos inventados. Não parece lá grande coisa tanta insensatez exposta, mas é desses bilhetes dourados que a gente espera horas na fila pra ver se dá um passeio. 

Você me fala que queria ser mais como eu – impulsiva e cheia de sentimentos – mas logo eu explico a puta roubada que é agir demais e não pensar quase nunca primeiro. Não te convenço, mas concordo que ser racional demais nos trava de viver coisas estupendas. Como estar ali ainda, pura teimosia. Como quando você ficou nervoso, paralisou e decidiu me confidenciar o que não saia da sua cabeça de jeito nenhum porque eu não era “qualquer uma”. Eu fico prometendo pra mim mesma e fazendo minhas amigas jurarem junto que você pode ir pra praia quantos finais de semana quiser que não vai achar por aí isso que a gente tem - conexão, encaixe, liga, loucura. A gente se pergunta quem é o mais insano ali mas chega a conclusão que ainda sai uma vez que outra e se fala só porque essa maratona ninguém vence.

Enquanto isso você faz que não é grande coisa e me chama pra viajar qualquer final de semana aí. Eu finjo que não ligo tanto mas fico um pouco ansiosa porque é da minha natureza - os courinhos em volta dos meus dedos são quase cartilagem já. Nós nos falamos e é sempre sem pé nem cabeça e uma péssima ideia, alegria de ir dormir e reconhecimento imediato. Vai saber até quando mas, ainda bem.




2 Comentários:

  1. eu tô apaixonada pelo teu texto,tua escrita,tua história ou o contexto dela. tô apaixonada.

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  2. In love com todas as coisas que você escreve, sério!

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