Soltinha

4.13.2015 -


Vê bem, não é do meu feitio ter medo nenhum. Ó, eu mudei de cidade em menos de um mês de decisão. Já troquei de curso sem pestanejar, converto de ideia toda vez que alguma iluminação por aqui brilha – sempre por conta própria, é claro –, tive pouquíssimo ou nem um calafrio o dia em que decidi que ia cortar uma franja bem curtinha e era isso. Ou seja: quase nada me paralisa nessa vida, são minguas as dúvidas que eu ainda escondo em algum bolso falso, lá pra trás onde é melhor que eu nem encontre. Quando vejo ele parado na calçada do meu prédio, a luz muito forte iluminando a moto, a mochila, a jaqueta e o capacete, porém, volto a ter cinco anos de idade e ser uma menininha que não dorme no escuro. 

Eu tenho medo de sentir qualquer coisa mais que uma atração irrefutável e o bem-estar de um maratonista-vegetariano-hare krishna. Gelo por dentro quando realizo que posso parecer ridícula se opino demais, imperfeita nua pela casa, uma tosca se olhando atenta demais pro liso do cabelo castanho dele, pro pequenininho dos olhos, pras paletas largas e a camiseta tão branca quanto os dentes. Dá um arrepio da espinha só de pensar que ele possa estar pensando que faz parte dos meus planos ficar no pé, o fechar numa redoma, casar daqui uns dias e ter filhos ano que vem. Só tenho uma porção de borboletas no estômago e vontade alguma que isso estrague, é só isso. Que a gente se perca por aí, que ele saia correndo, que eu fique sem entender nada.

Quase não durmo se começo a idealizar que daqui a pouco ele vai se tornar um cuzão, como a maioria, que preciso seguir meio receosa e atenta porque, afinal, vai saber se ele não vai se revelar um belo idiota nas páginas seguintes. É um terror e tanto não saber se falei ou fiz alguma besteira porque o álcool ameniza essa barreira, porque bêbada eu tomo uns goles ainda maiores de coragem e transpareço uma versão de mim mesma ainda mais impulsiva. Porque a minha ansiedade às vezes toma conta e deixa sem sobremesa e televisão se não me comporto durante o jantar. Medo da instabilidade, dos silêncios, do que a gente ainda não descobriu. Pavor da Bahia, de ser apresentada aos amigos, de não ter sido aprovada pelos mesmos. De ter acordado meio grogue e grosseira de manhã, já assustada mas sem nenhuma pretensão.

Então eu paraliso porque eu ainda preciso ser a mocinha corajosa que as amigas tanto admiram e pela primeira vez ao invés de fazer de tudo pra esse sentimento pesado se ir, eu tento ao máximo absorver e ficar tranquila. É uma puta dificuldade não cagar tudo sendo intensa ou apressar as horas com minha mania de urgência, mas o temor é maior e dessa vez não faço nada. Nos poucos minutos de aula sobre como ser acompanhante, numa moto, ele falou pra eu não ter medo nenhum, que ele ia na manha e pra que eu segurasse nele, mas ficasse soltinha. Mesmo nas curvas, mesmo quando ele fosse um pouquinho mais rápido. Eu juro que tenho tentado, juro. 




1 Comentários:

  1. Olá Camila! conheci seu blog hoje e me apaixonei! e esse texto ein? Incrível como me identifiquei. "Quase não durmo se começo a idealizar que daqui a pouco ele vai se tornar um cuzão, como a maioria" e sim "Eu tenho medo de sentir qualquer coisa mais que uma atração irrefutável e o bem-estar de um maratonista-vegetariano-hare krishna." HAHAHAH SOU EU, GENTE! voltarei aqui muitas vezes, um beijo!!!

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