Para um garoto com um escudo

4.28.2015 -


Porque você não passa de um garotinho com um escudo e ficou mal por eu ter tido que voltar de táxi pra não vomitar pela Marginal Pinheiros inteira, pediu pra guardar consigo uma calcinha minha e veste as luvas do trabalho excessivo como desculpa primordial pra não se envolver naquilo que tava legal fluindo legal demais pra fazer parte da crua realidade.

Por ser você só um pivete que se esquiva, eu fiquei sem entender todo aquele afeto exposto, o orgulho do meu emprego novo, as curiosidades sobre processo criativo e talecoisa que davam a entender que ia dar pé, que eu não era mais uma mina entre mil, que estava sendo ótimo ainda que ninguém à bordo soubesse muito bem onde tudo ia desaguar. E porque você fugiu comigo pro escritório do seu pai uns minutinhos, contou a ideia da nova tatuagem, riu comigo da mediocridade alheia e teve admiração por quão bem eu consigo me expressar e agora tem me tratado como uma estranha que cruza pelo mercado sem nunca ter compartilhado um naco da vida. Você então optou pelo já habitual e trocou a rota sem nem avisar do desvio: mais uma vez pulou do barco na esperança de se salvar, se inundando nessa solidão preenchida com amigos, Jack Daniel's, Gudangs from Bali, encontros nunca sequenciados e um vazio que tem como fachada a força do cara moderno que se basta e é contente assim.

E sendo um piá com uma defesa e tanto, você desvia das minhas diretas todas em idas ao banheiro bem disfarçadas, se resguarda em tom de mistério toda vez que o tom do drama sobe alguns decibéis e acha na instabilidade uma versão que me faça quiçá, quem sabe, tremer na base um tiquinho que seja. Como naquele dia em que você primeiro brochou por já ter brochado uma vez há meses e eu sempre ir com sede demais ao pote e depois teve uma ereção só de a gente ficar se olhando muito de perto, em êxtase. Eu forcei os olhos pra enxergar no seu porte, na sua segurança e nesse viés bem aventurado de levar a vida uma hombridade de um homenzarrão que ainda não existe - vai ver que justamente por esfregar demais os olhos na esperança de notar todas as coisas legais que a gente poderia fazer e ser é que ceguei pro quão despreparado você está pra desvestir a alma e se deixar admirar na mais humilde transparência.

Justamente por ser só um menino com um escudo, querendo às vezes brincar de luta pra ver se rola uma faísca novamente, noutras largando os apetrechos todos pra me despistar num esconde-esconde onde só você pode ser o vencedor é que me demiti desse papel de babá trouxa, apaguei seu telefone e resolvi que era hora de parar de batalhar pelo que faz questão de resistir. Tudo porque você é só um guri que se protege sendo o mais racional possível fechando janelas, queimando pontes e ocultado o seu coraçãozinho tão frágil e danificado no coqueiro mais alto da ilha mais improvável dos mapas humanos. Pra que ninguém pense que existe, cogite flechar ou arroube num piscar de olhos demorado. 

As minhas flechas, você devia saber, marujo, mocinho, rapaz: eram mais de rosas que de aço, feixes de carinho inestimável que deixa ser livre e só quer ver o outro feliz, sair às vezes, não se questionar bobagens quase nunca, remendar um assunto no outro, só doer de tanto se olhar. Mas eu sou só uma menina com um buquê de flores que briga pelo que quer e você um garoto que corre só de cogitar a palavra intimidade. E assim como você gosta de sair por aí e voltar quando quiser, eu aprecio acertar alvos e não ver carinhos e beijinhos sem ter fim despedaçados, pelos becos sujos da cidade. 








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