Alícia, não cai nessa: crescer é uma droga.

4.09.2015 -

Esses dias você me perguntou se podia ser o que quisesse quando crescesse. Por áudio, por Whatsapp, a léguas de onde eu moro hoje. Eu sinto sempre um arrepio quando o festival de questionamentos que mora dentro dessa cabecinha de dez anos de idade se inicia. Tenho vontade de te explicar o mundo e suas crueldades, tenho receio e fico quieta porque é bonito caçar um pouquinho da sua ingenuidade e fingir que é equivalente à minha. Alícia, embora eu tenha essa pose de metida e argumente firme com a mamãe, o pai, o nosso irmão do meio, eu vou te confessar um segredo muito íntimo: eu não sei de tudo. É, eu sei bem pouco, na verdade. Mas posso te adiantar que ter uma década só é mais reconfortante que acumular duas e alguns aninhos.

Sempre quando puxo alguma memória nossa, a minha favorita é essa: eu arrumando pijama, meia, chinelo e toalha pra tomar banho, você com a carinha de cão sem dono mais pidão do universo pedindo pra entrar no banheiro e ficar ali comigo. Observando o meu nu cansado de dia corrido. Contando o seu dia agitadinho multitarefas. Me enfiando goela abaixo um rodízio de perguntas sem fim sobre o que ainda está por vir. Essa curiosidade em ser adulta, sempre ela atropelando o sabão pelo corpo e os minutos que o condicionador demora a agir: quando eu for adulta eu vou ser assim? Eu vou ter esses pelos aí, desse jeito? Por que mulher fica menstruada e homem não?  Tu gosta de ter tetas? Escolho ser sempre honesta e direta, justamente por isso: entre todos lá em casa você vê na irmã mais velha um oráculo, uma divindade, uma inspiração. Isso me toca Alícia, sempre. Ainda com a distância é na minha voz de menina que você procura respostas. Uma responsabilidade e tanto.

Hoje eu acordei num desses dias que acho ser adulta uma droga, sabia? Quando a gente ainda é criança, pensa como vai ser legal não ter a mãe no pé mandando pro banho ou fazer a lição, que vamos poder almoçar uma panela de negrinho (brigadeiro, pros não gaúchos) ao invés de comer salada e que deve ser sensacional dirigir, ter uma casinha com a decoração que a gente acha fofa e vestir o que der na telha. Essa parte é bacana, mesmo. Mas a armadilha que é pagar contas, ficar em filas de banco, ter que ir às vezes ao cartório, usar roupas “sérias” para ir trabalhar e ser tachada de ridícula se chorar em público, dessas arapucas pouquíssimas pessoas contam. Adulto é esse animal sempre louco pra voltar a pintar desenhos e brincar de Barbie, meu amor – tanto que quando você convida, eu não penso duas vezes e me junto a você deitada no chão da sala, de barriga pra baixo e com as pernas jogadas pra cima. Voltar a ter oito anos dá mais barato que muitos lisérgicos ilegais por aí, eu garanto.

A gente passa a se preocupar com umas paradas bem chatas, tipo: ter um emprego massa, um plano de saúde decente, um namorado legal e que seja um amigão também. Todo dia é uma gincana de colégio cumprir o que precisa ser feito - e olha que não tem nem prêmio de consolação quando não dá pra vencer, hein. Tem noites que a gente quase não dorme pra terminar projetos, estudar pra provas, redigir teses ou até mesmo porque estamos muito ocupados bebendo cerveja ou praticando aquele esporte que se chama s-e-x-o, tabu quando esse seu corpinho quase adolescente se faz presente na mesa do jantar. Todo mundo que cresce fica chato, ranzinza, barrigudo e briguento, já reparou Alícia? A maioria das pessoas perde a imaginação, esquece que um dia ousou ter criatividade, finge que nada mais dói, não fica triste nunquinha e nem se abala porque precisa ser gente grande e estampar na cara uma palavra feia e esquisita que se chama maturidade. Quem sai sem essa máscara é excluído da brincadeira, sabia? O povo crescido pode ser também muito cruel.

Fique menina o quanto der, Alícia. Aproveite a amarelinha, os picolés duplos um atrás do outro, as músicas inventadas na hora do banho, as aulinhas imaginárias que você dá aos bichos de pelúcia do seu quarto. Vai doer em mim ver, ainda que de longe, tantas transformações até que você seja maior de idade e carregue nas costas esse peso e essa pena, a tal liberdade. Primeiro você vai ficar mocinha (já falamos sobre isso, lembra? falta bem pouco), quem sabe conhecer uma praga que se chama acne (torço pra que não), se apaixonar por algum garotinho tímido, ver que podem existir amiguinhas que não são de verdade e concordar comigo mais tarde a chatice que é química, física e matemática. Depois disse, my dear, o mundo é seu: você não só vai poder ser e fazer o que quiser, mas deve. Ordens de irmã mais velha. Pra mim, você já é gigante, enorme, estupenda: aqui dentro.

P.s. - Caso você encontre um rapazinho chamado Peter Pan, vá com ele pra longe também, o quanto antes. Encarar o Capitão Gancho ainda é mais fácil que ser adulto por aqui, vai por mim. Você vai detestar se depilar, usar absorventes - agora existe o coletor menstrual, que sorte a sua - e ir ao salão fazer as unhas, messas meninices que eu sempre adorei.

P.s.2 - Sinto sua falta sempre, todo dia, em especial à noite ou na hora do banho. 





1 Comentários:

  1. Que lindo o texto, linda você, linda Alícia e mais linda ainda essa relação! Fiquei emocionada, automaticamente pensei em minha irmã, mesmo a gente tendo poucos anos de diferença. Irmã mais velha será sempre isso, que mesmo sem saber como descrever, você disse lindamente nas entrelinhas. Irmã é amor, é cuidado. <3

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