Twist a casaca

3.25.2015 -


Desde cedo, minha mãe ensinou que era coisa feia virar a casaca. Quando o meu time, o Grêmio, ia de mal a pior no final da década de 90, eu quis muito mudar de time. Cheguei em casa da escolinha e, questionadora que sempre fui, lancei à mesa a questão: e então mamãe, eu posso me juntar ao lado vermelho da (momentânea) força? Negativo. Provinda de duas famílias terminantemente gremistas, eu havia nascido em berço tricolor. Que diabos ia eu, apenas euzinha, torcer sozinha pra quem nunca nem havia conquistado a Libertadores ainda, quiçá o mundo? – o que, lembremos bem, ocorreu apenas no ano 2006, amigos coloridos. Enfim, usar o verso do casaco estava proibido, aprendi. Ou não. Plena segunda década do século XXI e eu mudo de Beatle favorito. Sim.

Talvez seja lá coisa pouca pra alguém, mas cresci em meio aos discos do meu pai, adorador de rock bands. Havia alguns de capas horrorosas, como os do Twisted Sister e todos do Black Sabath, um em especial em que Ozzy segura um rato ou morcego, minha memória anda falha. Eu morria de medo. Porém, papito também sempre adorou os garotos de Liverpool. Tinha LP deles também, junto com Stones e Bowie. Ouvíamos em alguns domingos e se devo minha formação musical a alguém é ao seu Telmo. Sozinha, fui conhecer melhor Ringo, John, Paul e George na adolescência e, vergonha das vergonhas, me aprofundar no quarteto apenas por agora, enquanto termino a biografia de Bob Spitz sobre eles.

Com convicção, enchia a boca pra dizer que Lennon era meu favorito, sempre. E de fato, o acho um baita letrista, assim como compactuo com muitas das declarações que dava nas entrevistas por aí. O que falar do amor do garoto de Liverpool por Yoko? Já quis, já foi dos meus intentos achar uma devoção daquelas. Até que uma aproximação detalhada com a história da banda mudou a forma como eu respondia a tão importante pergunta "qual o seu Beatle favorito?". E foi aí que meu amor pelo rapaz mais quieto, concentrado e espirituoso dos quatro germinou: eu passei a responder George. Foi como virar a casaca, pela primeira vez na vida e não sentir remorso algum por isso.

Talvez porque ando numa fase de muitas descobertas místicas e de como encaro e alimento meu próprio espírito, talvez porque ao conhecer melhor as facetas egoístas e perversas de John e o lado comercial extremo de Paul, gentleman e diplomata mas também competidor de uma vaga direta para líder de rock band, talvez porque não encontrei em Ringo característica alguma que me fizesse sentir empatia. Em Harrison, achei alguém tão preocupado com a qualidade do que produz que poderia ficar dias imersos em notas, melodias, riffs e composições - sim! - porque, afinal, foi um músico completo e compenetrado, divido entre o lado cômico aflorado e despreocupado e uma seriedade que tinha pouquíssimo a ver com a leveza que carregava por dentro.

George era talento e profundidade, preto e branco - nunca, nunquinha cinza - e, com o caminhar dos anos, passou a querer se tornar iluminado. Introduziu os demais Beatles à música indiana, viu que tocava guitarra duzentas vezes melhor que cítara e decidiu que, tudo bem; se era o rock o seu destino, que fosse com um toque de krishna, ao menos. Preterido, foi talhadíssimo em tempos de banda ainda formada pelo Paul e John, monopolizadores no quesito canções. Poucas pessoas sabem, mas Something, While My Guitar Gently Wheeps e Here Comes The Sun foram feitas pelas mãos hábeis desse pisciano dúbio e caçula de uma família humilde de descendência irlandesa. 

A vontade de virar colorada, admito, nunca mais me visitou. Contudo, escutar ao mais tímido dos quatro rapazes ingleses da maior banda de todos os tempos me dá vontade de ir além, de meditar enquanto o sol nasce, mudar pra Suíça - que outro integrante da banda poderia ter escrito Taxman? -  pra não pagar impostos, viver das coisas que a terra dá e regar as minhas plantinhas. Dá um impulso e tanto de crer no otimismo, agradecer a uma força maior, ser devota à minha felicidade e depositar as fichas na liberdade do amor. O menino rebelde de topete, vestido de teddy boy dos anos 60 e o mesmo hippie barbudo de cabelos longos da década seguinte deixam um legado que se assemelha e muito com o que prego nessa vida: tudo passa, mas alguma coisa dos outros sempre fica - no espírito, no ar, na gente. 






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