Reler é devorar a cutícula da alma

3.09.2015 -
Na foto, Kate Winslet relendo e se machucando

Acontece quase sempre mais ou menos assim: desce um demo qualquer no formato de ideia e ou sento rápido pra digitar toda aquela úlcera numa tentativa de melhorar, ou tão logo passa, chego em casa e faço qualquer outro serviço banal. Quem escreve há milênios jura que a gente deve deixar caderninho e caneta sempre a postos na cabeceira que é batata – anota-se o esboço e só assim a inspiração retorna do submundo no dia seguinte. Outro na bolsa pra evitar que a ideia pule de nós e se suicide. 

Deixar o sonho vagar é soltar o balãozinho de um gás que nas manhãs de quinta quase sempre me falta. Eu vou comendo as beiradas de todas das minhas unhas na fé de que alguma coisa bem legal pinte no meu cérebro fixada, despretensiosa, animação. Há semanas em que eu sinto a enxurrada de opiniões, desejos e falas entupir todos os bueiros das minhas horas, sempre neurótica. Noutras, nubla e abre sol, eu vou umas três vezes ao mercado, demoro quinze minutos pra escolher uma porcaria de condicionador e seguro o ódio próprio que é gastar pra tapar buracos internos.

Tenho tentado desesperadamente criar rituais que me lembrem da importância da escrita, dessa cura maligna que ao mesmo tempo enfeita e envenena os meus quadrinhos. Essa é a minha chance de contar o lado lânguido da história, de deixar claro que sou gótica porra nenhuma, que a gente poderia estar transando agora - sempre -  mas melhor é que eu fique aqui mesmo com os dicionários, me lambuzando no prazer dos sinônimos, fumando um cigarrinho de chocolate logo depois do orgasmo que é texto pronto. 

Reler, porém, revisar o gozo todo como quem cata pelo em ovo ou tenta descobrir se a transa valeu ou não; dessa dor eu me abstenho. Ou abraço essa menina que escreve verdades e espanta os homens que quer sair pra brincar nos sábados arrastados ou mato essa personagem caricata que uso de máscara mesmo quando ainda não é carnaval.

Escrever é nunca ter as unhas impecavelmente feitas porque é preciso toda hora que se digite, especule, roa, articule. É na ansiedade dos dedinhos rápidos e da mente trabalhando a cem por hora que eu bato carros que não dirijo e me safo sempre sem nenhum arranhão ou mea culpa. É a chance de ser bandida e vilã, redentora e imaculada, kitsch e fina quando se bem entender, em que texto couber. Na faceta que se preferir deixar à mostra.

Hoje eu sei que unhas lascam com facilidade e a mesma louça que dá boas frases de efeito ofusca o brilho do esmalte recém pintado. Há quem mate, quem coma, quem roube, quem meta a boca: a minha paranoia devora com uma vontade assustadora todos os resquícios de carne em volta dos dedos. E pouco lê de novo o que já escreveu pra não sofrer um dobrado e parar por aí. A mesma dá aval a seus dedos para se automutilar é a que segura as pontinhas todas de guardanapos, bloquinhos e frases soltas pelo celular pra não deixar cair forninho nenhum mais tarde; apenas espera a hora do bolo ficar pronto.



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