Inferno

3.11.2015 -



Eu vou falar com ele. Decidi, vou sim. Ah, chega dessa palhaçada, pelo amor de deus. Não posso? Quem disse que não? Sim, sim, a tal cartilha da boa mocinha comportada que tem todos os caras na mão sempre. Eu que mal tenho alguns escolhi e tô afim de falar com o Gilberto hoje. Com o Ricardinho amanhã. O Roberto semana que vem. Posso, com toda licença, falar com a criatura? Sei. Tô bem ligada que você pensa que seria uma puta perda de tempo, que eu não deveria. Ele não vai mudar, mas grandes bosta isso também. Que problema tem ir lá, abrir uma porcaria de janelinha, digitar umas coisinhas sem nexo e esperar cheia de adrenalina alguma resposta que nunca vai atingir o meu nível de satisfação? Caso eu queira agir mesmo posso nem avisar do resultado final, sabe disso, né?

Claro, se ele quisesse ele viria. Tá na minha fuça isso. É óbvio que a minha vontade tá num patamar mais elevado que a dele, ou ele pode estar mega ocupado, ou doente, ou viajando. Vai que ele contraiu dengue. Ou, quem sabe, foi morar na China. Pode ser que ele esteja não conseguindo me mandar nada, sempre existe a possibilidade de a pessoa ter sido assaltada. Ter sido presa. Estar em coma. Morta. A gente não sabe. O que eu ganho com isso? Primeiro de tudo, alívio. Segundo, certezas. Terceiro, tempo pra parar de ficar dando alimento a essa minha imaginação já tão obesa e sair com outros caras. Ia ser ótimo, mas não sou essas autocentradas ocupadonas que só pensam em business que conseguem focar em outro assunto qualquer da agenda e pronto, esquecer. Martela na minha cabeça até que a ação tenha tomado a dianteira e feito por mim. Saio por aí com uns duzentos pregos na cabeça e não entendo como não notam a bizarrice.

Gilberto, você tá bem? Gilberto, quanto tempo! Cê tá vivo? A quantas anda aquele piloto pra TV? Então Gilbertinho, vai ficar só curtindo a porra das minhas fotos no Instagram e não me convidar pra porcaria nenhuma nunca? O que você vai fazer hoje à noite, gato? A gente poderia estar transando, Gilberto. Fico feliz que você esteja bem. Tem dias que me pergunto qual o seu problema mental por dar esses perdidos sem nexo e depois penso melhor pra descobrir o meu em ainda querer ver uma vez que outra alguém tão instável. Você já foi tão babaca comigo, Gilberto, e eu já fui tão louca com você que essa coisa de nos falarmos ainda é até meio doentia, não acha? E quanto mais você escorrega eu cato n'água com toda força e afinco pra ver se cato o prêmio mais custoso da festa junina. 

Talvez realmente seja melhor ficar quietinha. Não devo, melhor não. A gente tem que segurar esses impulsos. Bancar a durona, pesar na arte de ser blasé. É, só assim pros homens darem valor. O problema é que sinto preguiça disso. Tédio. Lembra da última vez que saí com o sujeito? Nem foi assim tão “uau, não vivo sem isso”, a gente teve aquela fase distante, ele resolveu que seria uma boa ideia ficar estranho comigo do nada e por coisa nenhuma; eu suspeito que ele seja um palerma, na verdade. Tá chovendo aqui, sempre quando o tempo fica assim a minha carência se multiplica por vinte porque até os pingos todos se acham na colisão do asfalto enquanto comigo é só curva virada. Vai que eu falo e ele não responde. Vai que quebro a cabeça pra mandar algo que ele não ousaria recusar em sã consciência e ele opta por ser ainda mais escroto? Vai que marcamos, ele some e aparece com aquela cara deslavada que eu adoro de barba mal feita e banho tomado no outro dia? Não teria como resistir. 

Ai, guria. Deixa eu mandar? Deixa eu ser ridícula, quero minha história cheinha de casos mal resolvidos com uns amores que a gente fica achando que são gigantes mas no fim da vida vê que o inferno todo era menos que uma titica. O máximo que vai acontecer é eu ficar mal hoje, chorar antes de dormir e acordar ótima amanhã. E leve, essa parte é importante. Achando ele o cara mais otário do mundo, conseguindo odiar Gilberto como já odiei Carlos, Luciano, Foda-se, sabe. O que tenho a perder? O não já tá aqui comigo, sentado do lado, fazendo carão e até pose. Ah, mandei. Que se dane. Já era. Agora caso eu não responda, já sabe: fui ali sumir umas horas pra ele saber que tô ocupada decidindo qualquer outra coisa e vivendo pra caralho pra não parecer louca ou desesperada, ok? Beijos, miga! 


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