Facinha

3.03.2015 -
Calendario Pirelli, década de 70. Calendário oficial das facinhas. 

Tenho muita pouca vergonha nessa cara, aviso logo: sou fácil. Facinha, eles chamam entre eles nas mesas de happy hour, os celulares esfregados na cara uns dos outros. Dou cedo, não possuo nojinhos, falo com quem e quando bem entender, uso o que o espelho diz que cai bem. É ter algo que perfure o visível e ludibrie o imaginário, qualquer coisinha, e me torno mais possível que cio felino. Ser tão simples e direta tem seus percalços, mas a consciência limpinha ainda é o baby-doll mais arejado pras noites de calor. Bancar a durona, blasé e indiferente pode até "apaixonar"os caras, mas tenho certeza que fazer o que quer ainda é dos luxos mais recompensadores.

Flerto em bares sim, dou chance a desconhecidos, aposto as fichas do dia naquilo que tem chance de me fazer mais feliz ali, agora, no imediato. Me encanto em cada coincidência (vejo destino quando convém, só não trago porcaria de amor nenhum de volta). Mato sempre todas as curiosidades que ululam na minha cabecinha pra depois dormir saciada e tranquila, jovial e leviana, mais dona de mim que perdedora de coisa alguma. Moça de família? De duas, mais especificamente. Ainda visito vovó e tomamos chá, ainda brinco com minha irmã menor, ainda converso com meus pais sobre dinheiro e eventuais problemas. Como se ser curiosa e não negar fogo automaticamente me transformassem numa ninfomaníaca depravada que ataca senhores e adolescentes na rua e copula ali mesmo, em frente a todos. Difícil aceitar a alforria alheia quando ainda se é escravo de valores tão arcaicos.

Gosto demais de sexo para lamber os dedos e apagar a chama inicial crepitante, acesa. Muito acessível. Sirigaita. Tem que fazer doce, elas dizem. Esperar uns cinco encontros. As minhas amigas acham que seguram homem negando sexo date atrás de date, mas vêm chorar no meu colo também depois de “usadas” e, horror dos horrores, descartadas. Que mal existe em antecipar o inevitável? Honro muito a honestidade daqueles que se atrevem a transar, pegar, chupar e arder para se sentirem um pouco mais vivos - em especial, daquelas, não é das escolhas mais fáceis. O respeito com que me trato é tão colossal que fica impossível renegar aquilo que a mente processa, a carne pede e a história implora. Segredinho: é libertador viver sem amarras ou culpas que açoitam. 

Escrava da minha vontade e só, pinta um impulso e vou lá: pulo o precipício, chamo às 22h48 de quarta-feira, me torno – com o maior dos prazeres – a sobremesa do horário do almoço. Ajo pra combater a monotonia diária, me movimento pra criar memórias louváveis quando for velhinha. Caso dê vontade de mandar morrer, a mesma coisa. Enorme a preguiça dos jogos todos de sedução que clamam sempre pra que a gente se mantenha ocupadíssima full time e sempre e invente desculpas para os sujeitos continuarem atenciosos ao grande show. Pouco me importa os machistinhas de plantão, sempre revelados uns dias depois, nas mensagens seguintes, na babaquice de começar a tratar feito objeto quem também é humana e aceita seu sangue pulsar. 

Do meu lado, só serve se talvez aparecer um cara tão descomplicado quantos, desses que entenda que estamos todos no mesmo barco: deslanchando entre trabalho, amigos, esportes, festas e família, vivendo umas coisas e vendo no que dá – um querer de cada vez, todos bordados num mapa que pode levar ao tédio, à loucura, mas também ao romance. Ao sentir o cerco fechar sem a minha autorização, contudo, sumo. Zarpo prumas ondas novas onde ainda consiga me sentir fresca logo antes do café. Afinal, não são os homens (a maioria esmagadora, em especial os que se pensam num nível superior) que dizem que aquilo que vem com facilidade assim se esvai também? Trancafiada e sem asas, escolho a fuga ao desmazelo. Faz tempo, mas eu já fui. 




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