Bonzinhos, me desculpem, mas aqui não rola amar vocês

3.23.2015 -


Saí com ele esses dias aí e ao ser confrontada pelas mais próximas sobre que tal o date, me vi falar: ah, ótimo, é gato, bem sucedido, um amor. Mas, muito bonzinho. Tal qual fosse crime da juventude apreciar os bons tratos, como se um desprezo magistral golpeasse bem na artéria certa os próximos encontros todos com o feitiço de fazer não ir pra frente, nunca. Disse pouquíssimas coisas inapropriadas, não ofereceu droga alguma, guardou bem a sexualidade pra que não aflorasse ali, de repente, esqueceu de dizer umas safadezas inadequadas ao pé do ouvido. Bonzinhos, eu peço desculpas, mas aqui não rola amar vocês.

Eu queria, eu queria, eu JURO que queria: ia ser felizona se conseguisse me apaixonar de coração integral por caras estáveis que não somem depois de algumas semanas, que não são adictos de porcaria nenhuma, que não mentem mais pra se proteger que pra salvar a humanidade de ser medíocre. Teria mais paz, manteria minha autoestima intacta, viveria cada dia sem preocupações quando ao futuro, faria da felicidade uma âncora. Algum ímã de positivos me atrai aos indulgentes, bêbados, sabotadores, canalhas, enrolados, bon vivants. Já sentada à espera da próxima volta fica difícil sair dessa montanha-russa sem freios que é o romance levado a seus limites.

Conseguir ficar longe dos irrecuperáveis, egocêntricos, cheios de si, aventureiros e loucos da cabeça, entretanto, é tarefa em vão. O bondoso ali, querendo oferecer café da manhã sem o perigo do veneno, um alívio no cotidiano pesado com contas pagas, casa, comida, roupa lavada. Algum lado meu muito masoquista e doentio - também maléfico e durão - vai lá e esfaqueia as intenções generosas de rapazes apessoados sem dó nem piedade, acha tudo meio ridículo e clichê, sai correndo nu e dopado na direção contrária à calmaria dos amores duradouros. 

Depois de colher as melhores intenções de um jardim florido de elogios escaldantes, agrados insuperáveis e tanta benfeitoria que sou quase capaz de querer morrer, o que me abate é sempre a falta dos papos insanos, de se divertir sem lembrar que existe relógio e sentir a um arrepio que percorre o dorso de norte a sul. De comer queijo enroladinho com goiabada dentro pelada pela casa porque a intimidade do outro é mais camarada que governanta. Poucas conexões são tão crônicas quanto contemplar a sua loucura existindo ali, em frente, viva e com genes masculinos.

Rebelde nata, sei viver de forma muito precária sem a conquista trabalhosa e suas reviravoltas, as conversas safadas, o jeito despretensioso de levar a vida; sucumbo com uma facilidade primária a tudo que se mostra cabeludo e intrincado, tão encravado e sem perspectiva que só um milagre seria capaz de salvar – e se preciso, me torno fanática, religiosa, uma verdadeira carola dos canalhas e cafajestes de plantão. Ocupo bem o cargo de salvadora de pátrias ensandecidas por continuar numa pobreza de sentimentos, lutando pra ver felicidade na solidão, dando mancada atrás de mancada, enviando pedidos de desculpa romantizados pra logo depois ignorar mensagens de resposta. Só é possível me fartar na ilusão idílica que é domar com destreza feras tão arredias quanto euzinha.

Saí com ele esses dias e talvez até saia de novo. Tenho escutado o que as amigas aconselham como "dar uma chance" e tentado colocar em prática, ainda que nada nesse mundo substitua o primeiro contato de enlouquecer, peles que incendeiam e o casulo de borboletas do estômago dando uma festa pesada. Maus caráteres, vocês me perdoem, mas enquanto nenhum de vocês baixa a guarda e caminha do meu lado ao invés de querer tomar a dianteira, vou tentar ver treinar o olho pra achar a graça de uma cama quentinha, noites tranquilas e de beijos na testa antes de dormir. Torço pelo resgate. 



3 Comentários:

  1. Há tanto tempo não lia Camila e volto pra ter aquela sensação de sempre: essa guria somos nós.

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  2. Posso dizer? Gosto mais de cada postagem que eu leio sua, você escreve muito bem, sinto que te conheço super bem só pelos seus textos, invejo isso (de um jeito bom).
    Seu blog é incrivel, parabéns
    www.naoruiva.com

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