O não-bonito

2.20.2015 -


AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Adélia Prado PRADO, A. Bagagem. Rio de Janeiro: Record. 2011. p. 97.

Demorei incríveis duas décadas e dois anos para me apaixonar pela primeira vez pelo não feio. Se foi fácil substituir as convicções de beleza já tão pré-estabelecidas e afirmadas com novela das oito e filmes hollywoodianos? Necas, patavina. O acaso não poderia ter sido mais meu amigo ao fazer com que eu parasse europeia, branca demais e cheia de tanta roupa diante de alguém cujo único sentimento até então era o de alguma pirraça friendly e nada más. Tinha porte – esse luxo que tanto admiro – mas também pés de galinha, roupas em péssima combinação e uma atenção de primeira que eu não degustava há uns bons anos. O cabelo de anjo, a barba meio mal feita, óculos de uma armação péssima. Não era feio, atraia olhares, sabia discutir desde o rebaixamento do meu time e a crise do futebol brasileiro à música atual, esse meu assunto intocável. Soube também mais que isso, era tão senhor de uma sapiência já vivida que conseguiu lançar o feitiço exato decodificado pra me atrair da maneira mais misteriosa permitida.

O momento exato, ele irrompe sempre as ideias quando eu cito o não-bonito e lembro como foi a bruxaria de cair de amores tendo apenas um degrau acima a meu favor. Gesticulava muito, pausando sempre entre um assunto e outro, até inclinar o corpo na minha direção umas três ou quatro cervejas mais tarde. A mesma quantidade de álcool dançando pelo corpo todo depois, uma iluminação: e aí, eu dou essa chance ou não? Mas cara, ele não é bonito. Feio, pra feio não serve. Existe um charme, qualquer coisa que me atiça e talvez seja esse o mistério. Totalmente diferente das obviedades por quem caía de quatro até então. A mão é de pedreiro como todas as que eu sempre elejo as favoritas. Tantos morenos dos cabelos macios, os olhos clarinhos fitando aquela decisão soturna, qualquer estilo melhor que bermuda militar e lá fui eu escolher pras minhas conquistas (ou, talvez, deixas de ser cortejada e ganha) o meu primeiro nada convencional, exótico, imperfeito e quem sabe, por esse motivo mesmo, interessante "cara real". 

Quem vê montes de roubas descombinadas num look homem hétero demais pro meu gosto, decididamente, não vê físico. Mais tarde, pude descobrir que ele tinha um corpo ótimo, ficava maravilhoso sem as duas lentes sob os olhos e só de roçar de leve a pele no meu braço fazia querer morrer lentamente, ir pro céu sem ascensorista e pausas no submundo. Chamava as amigas, que me diziam sumida pra dizer: “ó, aconteceu, tô com um cara ótimo aí e ele é tão ótimo que nem é daqueles sonsos bonitinhos que eu sempre peguei”. Elas comemoravam, mesmo sabendo que - se tratando de mim - era provável que durasse pouco, que fosse mais um desses fogos de palha que acumulo desde que fiquei solteira (e bem, claro). Há muitos boys dignos de capa de revista não me via tão apaixonada, maluca e, felicíssima como diante daquelas olheiras profundas, da ansiosa falta de unhas. Dessas crias tão contentes capaz de deixar o dia de qualquer um meio lixo porque respirar aqueles dias eram mais.

Não que tenha dado certo. Dar, até deu: até certo momento. Hoje me acostumei com a ideia de que pessoas rompem a nossa vida e trocam peças de lugar, desabrocham ideias antes nunca lidas com a devida atenção. Deu pra aprender que, fisgada pelo intelecto, potencializo ainda mais o farrapo que anda o meu romantismo, ainda que cheio de remendos e costuras aparentes. Se livrar de um amor pouco evidente é ter que arrancar da alma à força a promessa de uma paz mansinha que a gente crê justamente por fugir do banal. Adianta coisa nenhuma minha mãe enviar fotos catadas em redes sociais para mostrar "olha filha, ele até engordou, agora ainda é obeso". Funciona pouquíssimo a melhor amiga despistar pro lado de "se visse vocês na rua questionaria por que uma guria tão bonita exala paixão por uma criatura como ele". Como bem poetizou Adélia: amor feinho, uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais. Então cristã na mania de querer desbravar a natureza moral de cada homem, larguei mão da boniteza como primeiro requisito no pódio e isso só tem me feito chegar antes e ir mais longe; uma rica dos tesouros alheios.

Ele me mandou ser feliz por aí e se cuidar. Eu fiquei sem ar e chorei o equivalente a duas Cantareiras cheinhas. Nenhuma decisão nunca mais foi tão acertada, inesperada e contraditória. Ainda hoje às vezes sinto falta de me apaixonar pelos discursos bem feitinhos e pelos exercícios mentais impecáveis. Eu vejo beleza por todos cantos, eu encontro fácil outros gatos nos telhados paulistanos em algumas noites do mês, mas nunca mais o frio da barriga daquilo que a gente não lê bem, mas sabe ser nosso recado. A gente nunca mais se achou por aí.





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