Querida Gabi,

1.27.2015 -
Aqui, a MARAVILHOSA (sim, em Caps, pois é muito) Vanessa Braga

Tenho a sua altura e uns bons 6 quilos a mais, mas isso não vem ao caso. Também tenho doze anos a menos que você e fiquei perplexa com tamanha falta de bom senso, arrogância travestida em elogios cagados e falta de tato ao se dirigir a real vencedora de um Garota Verão 2015 cuja final ainda nem aconteceu, a guria Vanessa Braga.

É provável que meu corpo não dê de 10 a zero no seu – nem no da Gracyanne, nem no da minha melhor amiga ou da própria menina de Canguçu. Ainda que desse: que importância tem isso? Que é dar de “de dez a zero” num mundo onde beleza é algo totalmente abstrato, pessoal e intransferível? Eu também me reeduquei quanto à comida, faço exercícios quando dá e como um Kit Kat quando as tardes estão péssimas. Aproveitei a minha praia aí no RS, Torres, dando vários mergulhos, me sujando de areia com minha irmã menor e desfilando por aí este físico que nunca passaria ileso sem mexidas do tio do Photoshop numa capa de revista. Mas, quem liga? Quem deveria? Acredito que eu e: apenas euzinha.

Ter sido uma adolescente gordinha podia ter me lesado de diversas maneiras e deixado traumas péssimos. Olha só, que maravilhoso: não aconteceu. Tive uma mãe ótima e presente e, ainda que tenha crescido na capital gaúcha e já submersa no ciberespaço, nunca precisei de terapeutas caros, roupas largas ou outros subterfúgios que mascarassem quem realmente sou. Personalidade sempre me foi o essencial, o suficiente. Quer um exemplo? Nunca deixei de ir a festinhas de quinze anos, usar biquíni, viver paixões adolescentes ou tirar a túnica em viagens de páscoa e me jogar no mar. 

Quer outro? Minha mãe - que sempre antipatizou com a sua pessoa (ela já notava essa tendência de superioridade disfarçada há anos) - casou com meu pai apenas quando eu já era nascida e tinha nove anos. Depois de três filhos, seu corpo não voltou a ter a cinturinha dos anos 90, seus seios aumentaram e, como toda mulher que trabalha muito e cuida de crianças, ela ganhou peso. Eu sigo a vendo de forma maravilhosa: seus cabelos sempre emaranhados, finos e escorridos, os vestidos charmosinhos que escolhe para usar, as unhas cuidadas e caprichadas. Meu pai, ainda mais. Quando infelizmente escutávamos você palpitar no rádio, o seu Telmo fingia te adorar apenas para provoca-la; ela nunca levou a sério. Nunca vi casamento mais congruente, de parceria e solidificado.

Mas isso tudo não se trata apenas de mim e de você, essas privilegiadas. Somos brancas, de uma classe social legal, estudadas, moradoras de grandes cidades. Fica fácil se achar maravilhosa tendo acesso a boas academias, dicas de dieta e beauté. Mais fácil ainda de aplicar em cabelos lisos, pele quase transparente e dinheiro no banco. O que fica ridículo mesmo é expor tais facilidades na cara de quem não às tem e fingir um tapa que na verdade nem deve ter doído. Tentar minar com dúvidas quem é só coragem é das atitudes mais horrorosas que já li por aí.

Nesse seu texto cheio de mau gosto e subterfúgios para se dizer melhor que Vanessinha – mas sempre segundo os outros, a opinião alheia, o senso comum – e gana de caçar likes com a bravata da garota, reinou a sua covardia ao posar de admiradora, porém com um fundo de superioridade. Talvez fosse bom trocar esse analista de boutique por uns bons meses de trabalho voluntário, viu? Eu recomendo. A gente sobrevive. 

Sabe, se você tivesse lido com atenção ao texto do seu antigo local de trabalho, talvez notasse que ela vive numa cidade pequena, no meio do mato, e não possui internet. Teria visto com a atenção de um salva-vidas que ela se acha linda, o pai possui o maior orgulho e sua mãe, ainda mais convincente da beleza da filha, é que foi quem a inscreveu no concurso. Talvez por estar tão distante deste mundo fútil e superficial que a internet de muitas formas alimenta – e o seu site se inclui nisso, sim - é que essa garota tão preciosa se sinta segura, confiante e tranquila com o corpo que possui. Por isso, torço pra que seu texto não chegue às mãos dela. Ou melhor, aos olhos. 

p.s. - Vanessa tem cara é de quem curte um abraço, mas se você se sentiu dolorida ao vê-la assim, pior pra você :)

4 Comentários:

  1. Mais uma vez: espero que o texto dela nunca chegue na menina Vanessa! Porque o texto dela, nada tem a ver com padrões da sociedade e sim com os padrões que segundo ela, ela possui melhores que o da menina! Uma pena!

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  2. Seu texto não deixa de ser preconceituoso. "Mas isso tudo não se trata apenas de mim e de você, essas privilegiadas. Somos brancas, de uma classe social legal, estudadas, moradoras de grandes cidades. Fica fácil se achar maravilhosa tendo acesso a boas academias, dicas de dieta e beauté. Mais fácil ainda de aplicar em cabelos lisos, pele quase transparente e dinheiro no banco." Afinal, quem disse que essas características que você listou são positivas? Pessoas que tem blog, escrevem o que querem no blog, afinal, o espaço é delas. Por exemplo: a quem interessa saber o quão sólido é o casamento de seus pais. Somente a você. Mas estava com vontade de informar ao leitor isso e ponto final. Somos todos arrogantes. Estamos sempre todos certos. Nossa opinião é sempre melhor que a do outro. A realidade é essa. Na minha opinião, seu texto está tão arrogante quanto o da Chanas. Se ela não é ninguém para dizer quem é bonito ou não, quem é você para recomendar à ela trabalho voluntário? A conhece o suficiente para saber se ela já faz isso ou não? E se você tivesse prestado a atenção, a própria mãe da menina, em entrevista disse: "Ela é gordinha, MAS é linda". A hipocrisia nos ronda insistentemente.

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  3. Que pena que tenha apagado meu comentário, Camila!
    Noto a importância que tu dá para os teus leitores.

    Um Beijo G.

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