Paulão

1.25.2015 -


Meu amor por Paulão começou por acaso, em época de Copa do Mundo, no meio de uma rua lotada, em minha cidade natal. Uma loucura dessas que a gente nem dá muito crédito inicial, mas se endivida no fim das contas todas. Era desses que fazem a gente perder o tino, esquecer as horas, faltar compromissos e adquirir – ou, meu caso, reavivar – um senso de urgência até então amortecido pelo tédio de uma capital onde já não havia mais canto algum a desbravar. De porte tão graúdo quanto o meu, as mãos estupidamente  largas e uma ciência sobre os mais diversos temas que me fez, desde sempre até então, trocar o fosco já cansado dos olhos pelo brilho de um verniz novinho em folha.

Dono de si me abraçou num aeroporto de Guarulhos lotado e mostrou o bom e o melhor da megalópole com pinta de anfitrião. Em cinco dias, já era uma apaixonada por cada rua, estacionamento, bairro, restaurante, museu e até mesmo congestionamento dessa cidade que é mais eu que ele mesmo. Ele falava de um turbilhão eu formato de município, da miscigenação de todos ao mesmo tempo em tudo quanto era lugares, da caridade de táxis – mas, da generosidade dos metrôs. De museus incríveis, avenidas descomunais, prédios estupendos e a vivacidade de uma cultura misteriosa, indefinida.  Seco e cético, mesmo me vendo chorar o equivalente a umas três Cantareiras, não despejou lágrima alguma na primeira despedida (“alguém precisa ser forte aqui, querida” – e, soube mais tarde, receptor de tantas nordestinas, capixabas e sulistas, aprendeu na marra a aguentar o tranco).

Logo minha paixão por nossa paixão mudou de essencial e volumosa para um carinho terno e sempre desses de encher o coração de sorrisos mentais. Eu comecei a explorar ainda melhor esse centro de tudo e todos quando me vi sozinha e sem rumo num horário de almoço pelo Itaim Bibi. A partir daí, apenas consegui me encantar ainda mais com pedaços desse santo que, mesmo distante, ficou com uma versão minha mais ingênua, menos idealista e acomodada que deu lugar à loba solitária que, depois dele, todas se tornam. O homão fez questão de sair de cena no momento exato para que, então, conhecesse apenas Paulo. Nada possessivo, me apresentou aos mais diversos protótipos de homens, guris, mirins; rapazes, paulistas ou mineiros, médicos ou analistas. Fez com que eu aprendesse a andar com sombrinha na bolsa, a passos largos e de antes acesíssimas - pode sempre pintar uma garoa, um assaltante ou qualquer conhecido de quem a gente queira distância.

Paulão foi gota d’água e também desespero, apareceu na hora errada, mas continua fazendo alguma coisa fresca sempre acontecer no meu coração: seja indo buscar ou deixar alguém em Congonhas, a caminho de conhecer os parentes que eu nem sabia existir que já vivem na metrópole há anos, caminhando a av. Paulista sozinha com uma mochila nas costas num sábado à tarde escaldante. Ele envelhece a cada dia mas permanece com o mesmo ar de moleque, esconde sua marginalidade em camisas sociais bonitas, construções contemporâneas, estádios de futebol lotados e feiras "de quinta ou de terça". Eu sigo mais urbanoide que o habitual, contagiada pela pressa dos passantes, amiga agora de Augusta, Angélica e até da idosa indecente que é a Consolação. A gente nunca mais se viu mas quem me encontra por aí diz que o olhar se tornou ainda mais lustroso e depois desse affair, apenas floresci em meio a tanto concreto. Eu acredito.




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