Mamãe, coragem

9.02.2014 -


Sampa, 29 de agosto

Mãe, eu prometi que ia escrever antes, mas só consegui parar e me inspirar agora porque tá chovendo. Como tu bem sabe, nos dias de sol eu saio e me energizo toda pelos raios que atingem as ruas, as calçadas, o meu couro cabeludo. A escrivaninha fica bem em frente à janela, e eu consigo olhar todos cheios de pompa em suas roupas sociais trabalhando sem parar, afinal, o vício aqui é esse: passar horas enfurnado num escritório e mais algum turno em casa aprimorando aquilo e ter pouco tempo pra aproveitar a vastidão cultural que a cidade oferece.

É fácil pra quem nasceu paulistano criticar o cinza do horizonte, a poluição do ar e o trânsito, mas eu acho tudo aqui encantador. Sorte minha ainda ser turista por aqui. São poucas as pessoas que já atentam a qualidade de vida e param e conseguem ter algum lazer que não os estudos ou a própria profissão. Sei que secretamente tu torce pra que esse bichinho me pique também, mas acho que nunca de forma tão doentia quanto ao povo que já tá mais inserido aqui - o meu lado bon vivant impediria tanta seriedade, a senhora bem sabe.

Eu tô bebendo suco de maracujá Maguari nesse momento e lembrei aí de casa - com a diferença que o meu é light, claro - e de como o pai acha forte e sempre coloca água no dele. Ele mandou uma mensagem esses dias falando que minha beleza e inteligência chamam atenção a todo lugar e que tinha sonhado com o meu destaque em um grande evento. Mole feito manteiga fora do refrigerador, até chorei de manhã, quando vi. Imaginei ele sentado no sofá da sala, tarde da noite e pensando em como me passar algum carinho de tão longe, tal a falta de habilidade telefônica que ele possui.

Meu maior hobby aqui é pegar o metrô e ir pra algum lugar que eu ainda não conheço. Pinacoteca, Parque da Luz, Museu da Língua Portuguesa, Av. Paulista, Alameda Santos, Consolação, Ibirapuera, Eldorado, Iguatemi JK, Av. Faria Lima, Praça da Sé. Tenho rodopiado numa velocidade tremenda e dormido bem todos os dias. Chego e capoto, simples. Pensei que ia rolar a maior insônia, aquela minha inquietação de estar longe de casa e que antes de vir pra cá me assustava sempre às 5h da manhã. Nada: durmo feito anjo, criança cansada de brincar horas e horas num playground ainda por total desconhecido. A única diferença é que no meu parquinho eu sou anônima e, mais que isso: tenho sentido mais que nunca medo nenhum de me quebrar, uma sede como sob o céu do Saara de viver aventuras, ir onde der na telha.

Comprei no Mercadão há umas semanas uma cuia, erva, bomba e ainda tinha feito chimarrão. Motivo: faltava a térmica. Nesse momento eu tô ouvindo a Gal e já tomei uns dois litros apenas hoje. Comprei no Záffari, assim, com acento, que existe aqui - bizarro, bizarro, mas completamente igual ao que temos aí na rua de cima em Porto Alegre. Me senti em casa no Bourbon e seus tijolinhos brancos com roxo, me senti acolhida esses dias quando saí com uns gaúchos pra ver o jogo do Grêmio.

Ao contrário do que tu pensa, tenho escrito sim, apenas tenho me ausentado de postar. Coloco uma música, acendo incenso de Terra Molhada e deixo as ideias fluírem, se arrastarem, colidirem. Hoje cedo fiquei meio triste ao ler a tua mensagem falando que estou jogando o dom no lixo. Ou que não tenho tirado selfies (coisa mais cafona, peloamor), ou que tenho postado pouco. Eu sinto a cidade, eu absorvo cada rua caótica, eu tiro de cada conversa com taxista uma lição pra essa vida. Me perco e peço informações, me sinto em casa porque a família com quem tenho vivido é parecidíssima com a nossa e toda espiritual. Ando bem, como te disse: ando feliz e sussa na maior parte do meu tempo cotidiano.

As pessoas todas me olham muito na rua aqui. É meio inexplicável, mas eu credito isso a estar branca demais e na minha versão mais loira de todas. Uso aquelas minhas roupas que o seu Telmo tanto criticava por aí e ninguém liga muito, não. Os nordestinos me amam, os homens em especial parecem saber que eu vim de aí de baixo, de longe e, por ser do Sul, me tratam feito uma boneca de porcelana: de luxo. Mulher gaúcha aqui é artigo glamouroso pros caras, que querem marcar encontros com urgência e me escutam falar com a maravilhosidade de quem ouve uma sinfonia, uma melodia com letra cantada.

E gostam de apresentar dizendo que eu sou de Porto Alegre, tri legal, bá tchê , e que torço pro tricolor e entendo de futebol e amo música antiga e eu quase morro de preguiça. Eu lá sirvo pra ser chaveiro, papagaio de pirata ou ostentação pra alguém? Não, né. Por esse motivo mesmo é que eu acredito ter faltado a três encontros sem explicação alguma. A boa notícia é que na maioria compareci, e tenho sido mais bem tratada que nunca na história porto-alegrense. Homem aqui é o que não me falta, como tu deve imaginar. Porém, emprego é que me tem feito correr atrás feito louca de dinheiro e alguma estabilidade. Tenho enviado currículos, ido atrás de vagas aqui pertinho e procurado algo legal que não mate esse meu frescor diário recém adquirido. Sinto saudades, principalmente de ti, da Alícia. A vida aqui é inexata e nada tranquila, mas tão enlouquecedora quando a minha inquietude. Portinho se torna cada vez menor no meu olhar, uma casa de férias, uma visita turística. Quero ficar. Mamãe, mamãe, não chore; a vida é assim mesmo, eu quero mesmo é isso aqui.





5 Comentários:

  1. Não precisava me fazer chorar tanto assim eu não consigo nem digitar.

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  2. Me lembrou TANTO Caio F, lido todinho no Cartas Camila!
    Muito, muito mesmo! Esta urgência! Esta descrição do cotidiano, Gal tocando, escrivaninha e raios de sol.
    O mundo de espera! Que em qualquer lugar que vá, seja bem recebida e que venha à Minas, comer um pão de queijo comigo. <3

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  3. Ai Camila! Sempre acompanhei teus passos e fico muito feliz por essa sua coragem de descobrir o novo. Que teu futuro seja promisso linda!!!! Beijos e sucesso... Dona Gê que tem que ser forte... rs

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  4. Camila, as emoções dos novos paulistas vão ficar ainda mais bem descritas com você. São Paulo te merece!

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  5. Camila, cadê mais? rs Não me deixa órfã dos seus textos, prfv. E não me deixa mentir, tenho recomendado seus textos pra amigos.

    http://www.praondefugir.com/

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