Isso importará daqui um ano?

7.03.2014 -

De vez em quando, a vida por aqui dá um loopings bem loucos e eu fico por baixo também. Tão logo a merda acontece, me apresso a culpar os cosmos, as recalcadas, meus pais e a minha ingenuidade por me meter em furadas. É amiga que dá furo, cara que se revela babaca, roupa que a gente compra no tamanho errado, familiar que só fala com a gente quando o interesse é unilateral, reprovar em alguma matéria na faculdade por faltas, e por aí vai. Acontece. Há episódios que podemos controlar e minimizar, verdade. Outros, porém, dependem que os astros, os mantras, o cara lá de cima e a torcida do Flamengo conspirem a favor para que não aconteçam.

Sob o leite derramado, contudo, a primeira atitude irracional é chorar, lamentar, desejar arrancar os cabelos. Mezzo italiana, mezzo portuguesa, desde bem pequena tive e convivi com gente cujas emoções possam ser consideradas fora do controle habitual - o lado made in Itália, principalmente. E bem, já muito saí por aí chutando portas, proferindo impropérios e me indispondo com um punhado de pessoas sem a menor necessidade do auê todo. Numa dessas, me deparei por aí com um desses cartazes filosóficos pela rua que nos fazem mais parar pra digerir a frase e processar na vida que seguir o caminho já roteirizado: isso importará daqui um ano? Numa das minhas descidas derradeiras nessa farra que é existir, comecei a me questionar. Não. Realmente, não.

Há um ano atrás eu não era capaz de visualizar quanta coisa maravilhosa ia me acontecer se me focasse na pessoa que eu gostaria de me tornar. Sem a urgência de sempre, comecei aos pouquinhos a soltar a mão de situações, criaturas, lembranças e rancores que poderiam me prender ou moldar em algo que carrega escoriações e cicatrizes de outros tempos. As surpresas dessas vida foram chegando de forma aleatória e sem bater na porta; algumas, de sopetão, quase como num susto. Outras, depois de um árduo trabalho mental, espiritual e com amigas, terapeuta e minha mãe. 

Foi soltar a mão dessa mania de Maria do Bairro sofredora pra pensar que se a vida varresse pra longe, que era sujeira e ponto final. Demorou, mas com o tempo, me forcei a recitar feito oração algo parecido com eu-vou-deixar-pra-lá-e-tá-tudo-certo, se-eu-me-importar-menos-vai-ficar-cada-vez-menor e afins. Hoje, nem preciso pensar mais tanto a respeito, embora meu cérebro ainda rode a 200 km/h quando o assunto me interessa um pouquinho que seja; consigo, então, saber que mais que luz no fim do túnel ou final feliz, que a vida, ela é cheia de possibilidades.

Não que o foco seja um convidado especial, mas vez que outra ele se faz inteiro e intransferível do momento presente. Eu agarro com unhas, dentes e todo o meu coração qualquer chance de mostrar os dentes, todo instante em que o tédio não merece atuar, joguei o protagonismo no colo de cada uma dessas histórinhas que merecem ser vivenciadas até onde o enredo permita. Tô eu aqui por cima dessa vez na montanha-russa que trilha desgovernada o verbo viver. Tá ali na frente uma probabilidade de me esborrachar sem que eu ao menos sonhe com a queda. Dentro de mim, a matéria com nota mais alta no último ano vivido se chama renascimento pós moderno, ou: levanta e anda que daqui 365 dias isso daí vai ser pó e foto antiga.


1 Comentários:

  1. "Tô eu aqui por cima dessa vez na montanha-russa que trilha desgovernada o verbo viver. Tá ali na frente uma probabilidade de me esborrachar sem que eu ao menos sonhe com a queda. Dentro de mim, a matéria com nota mais alta no último ano vivido se chama renascimento pós moderno, ou: levanta e anda que daqui 365 dias isso daí vai ser pó e foto antiga." Amei o texto, principalmente essa última parte!!! Tu te superas a cada texto, Camila, parabéns!

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