Eu já não sei o que fazer comigo mesma

7.27.2014 -



Assim como a minha mãe também não, nem a minha terapeuta, os parentes próximos ou os amigos de anos. Quando eu tinha dez anos eu jurava que ia ser juíza quando fosse "grande". Já estagnada no meu um metro e setenta, entrei para o Direito assim que acabei o colégio. A terapeuta do Unificado da Nilo jurava que a opção mais viável e que casava com minha personalidade era a jurisprudência, afinal, com tantos argumentos e opiniões como é que essa menina vai ter vocação para o jornalismo, a moda, a psicologia (as opções seguintes do acompanhamento que fiz com a psicóloga da escola). Cursei alguns meses numa das melhores faculdades de Porto Alegre. Ia para aula de manhã cedo com sono, a pé e sempre muito bem vestida. Dormia, desenhava, escrevia e achava toda aquela seriedade do mundo das leis um campo onde, pelas minhas mãos, só seria capaz colher infelicidade dali em diante.

Completei a maioridade e ganhei um mapa astral feito por uma das mais renomadas astrólogas de Portinho. Ainda lembro daquele encontro cósmico: a chuva abundante lá fora, a rua sem saída, os gatos, zilhões de livros, cheiro de incenso. Ela me falando de como nasci mais pra ditar tendências que para segui-las. De como o sol estava alto, tão fundo e brilhante na hora do meu nascimento que eu só poderia ter nascido para brilhar. E que os processos, as causas e os tailleurs das ciências jurídicas não me cabiam, não. Sai daquela porta convencida de que, seja na escrita ou nos looks, eu havia nascido com uma singularidade aparente que poucos tem (ou desejam) a capacidade de revelar. Prestei vestibular de novo, para jornalismo. Passei pelo Enem para um curso técnico em Moda, no Paraná. Fiquei na mesma cidade de sempre, no colo da família, abrigada então na PUC-RS, mais especificamente na Famecos - uma das, senão a, melhor faculdade de comunicação paga do país. Cursei cinco semestres, entre altos e baixos, felicidades estupendas e bons tombos, aprendizados de uma vida e o tédio ocasional. Até que, de novo, eu resolvi que era tempo de reinvenção, como se tivesse todo tempo do mundo e meus pais já não tivessem gasto dinheiro suficiente nessas minhas andanças.

Balancei entre a moda e a psicologia. Fiquei com o segundo. Aguentei um mês apenas em meio a tanta teoria e prática nenhuma. Não era para mim. E volta e meia eu volto a cantar mentalmente o Jack White dizendo que já não sabe mais o que fazer com ele mesmo. Dá vontade de subir num pole dance vizinho ao da Kate Moss e, embora não possua metade daquele sex appeal (é a modelo das modelos gente, pelamor) e tentar ganhar uns trocados pra ver se assim, ralando no duro, alguma ideia luminosa me atinge em cheio. Eu tenho vinte e dois anos de idade, três tentativas de cursos superiores no currículo e nenhuma vergonha em dizer que, felizmente, não sei exatamente o que eu desejo fazer pelo resto da minha existência. É de assustar os pais, os irmãos, os avós, os pretendentes, os ex-colegas que me acompanham virtualmente sempre em alguma nova empreitada que hora ou outra vai me maçar as ideias e cansar a vista.

É provável que eu devesse tomar meio litro de jeito e umas doses de pudor e decências pra focar em algo e ser feliz, eu sei. Mas sento nas janelas da vida, de casa, da lotação, do avião e reflito: que chatos os dias cheios de certeza desses aí que nunca mudam de ideia vez que outra e criam uma rotina novinha pra chamar de sua. Que pacata a vidinha cheia de afinco e seriedade de quem nunca se arrisca a saber como funciona a mente humana, os fatos apurados, a dignidade do código de conduta. Eu já não sei o que fazer comigo mesma, mas mudando de cidade, atualizando meus pensamentos, conhecendo gente e indo pelo caminho, eu aviso meus antigos professores, as recalcadas todas, os caras do passado e os tios do interior o decreto que decidi para mim; sozinha, com calma, sem tempo ruim, cara feia e os julgamentos todos de estar envelhecendo sem sentir o tempo atropelar, só trazer bônus e vidas a mais ao longo desse game chamado existir.




2 Comentários:

  1. Eu te admiro por ser assim, apesar das várias tentativas de concluir o ensino superior, determinada. Muito me admira quem larga tudo que tá fazendo só por saber que mais na frente tem algo maravilhoso.Ai, Cami, Cami, você é d+ ♥

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  2. Gostei deste texto! Continue assim e dê tempo ao tempo. Viva! que nem você disse. Gostei dessa parte: "sozinha, com calma, sem tempo ruim, cara feia e os julgamentos todos de estar envelhecendo sem sentir o tempo atropelar, só trazer bônus e vidas a mais ao longo desse game chamado existir."

    Beijocas!

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