Obrigada, desgraçado

6.30.2014 -


Faz tempos que não nos vemos. Há cerca de um ano você foge e deixa de ir a lugares e de existir online, penso eu que, em minha razão. Triste isso. Mas nada é mais absurdo que a sequência de barbáries que eu vi você cometer quando ainda sonhávamos em morar fora daqui e ter três filhos homens (plano esse todo, todinho seu, eu seria boa mãe e tinha quadril largo, bom pra procriar, como você dizia, né?). Eu estou bem, finalmente. A sensação de vitória chegou há uns meses, quando tive a oportunidade de chegar pertinho e dar o tão merecido soco na cara e recuei de longe, num estacionamento. Sorri: você foi a melhor pior merda que me aconteceu nessa vida.

Não fosse o tranco de ter que aguentar barraco em festa com uma das suas amantes - que me perseguiu algumas outras vezes, em alguns outros meses - e a sua mudança repentina de cara normal com bons gostos a rapaz bombado de ostentação das festas, seria muito mais difícil seguir em frente. Afinal, deixei contigo alguns dos rótulos como aquele em que manchou lençóis e outros de conhecer família. Eu sofri, sofri horrores com as suas declarações de amor pra um futuro de não se sabe quando, chorei umas cento e pouquinhas noites, todas inteiras, por não compreender quem era a criatura que ria comigo depois de comer cookies; um rapaz com possibilidade de psicopatia ou um ser fraco e cheio de defeitos inconfessáveis? Você nunca pediu desculpas e fui obrigada a enfrentar um leão por dia, uma nova descoberta de vestígios passados por semana, as duas idas e vindas confusas que na sua língua eram amor e na verdade não passavam de posse. Obrigada, de coração, por ter dado espaço e deixado que o lugar vagasse pra alguém melhor sentar.

Quando penso em tudo que tivemos, nas babaquices e canalhices, nos minutos bem fingidos e nas horas sempre bem gastas (na cama, óbvio), não sinto nem raiva, nem dor, talvez nojo, acho que pena. Eu rebobino a fita e quase jogo as mãos ao céu, mesmo na nossa despedida, tão fria e horrenda: você me obrigando a aceitar a nota de cinquenta reais pra ir embora e sumir e não estragar a sua festa. Eu chorando como quem perde um membro ou a vida, mas era só a falta de ar e o mundo tombando enquanto eu descobria que, sim, tem em você uma podridão que eu desconhecia, ouvir dizer que eu era a pessoa que tu mais ama, mas, que também mais odeia fez cair todas as fichas do milênio de uma vez só, no meu alvo, na minha cabeça já pesada de tanto lacrimejar e querer descer do táxi. Demorei, mas compreendi coisas que talvez a gente só aprenda quando um pesadelo desses vira passado: gracias, muchas gracias por ter me feito crescer como ninguém, numa velocidade surpreendente e cheia de raízes. O mundo me derrubaria, como praguejou a sua voz, tão ingênua e boa. Sacudi mas tô aqui, mais de pé que nunca antes.

Depois disso, entrei na academia. Adotei uma gata. Me resguardei até que as feridas sarassem e não vou falar em fênixes porque isso é o maior clichê da Terra, mas depois de ter me perdido tanto pelas curvas de um caminho que decididamente não era meu, consegui sinalizar uma rota onde eu digo quando se para, quando se vai em frente, onde se descansa. Não que uma vontade irracional de cuspir em cima de você não exista, claro. Ao vivo minha imprevisibilidade dobra de tamanho. Porém, existe uma gratidão profunda por ter me deixado em paz, por você ter deixado pra lá, por eu ter ficado aqui. Hoje, mais loira, mais magra, mais saudável, mais bem comida e em tratamento consigo visualizar, com felicidade, o quão dodói éramos os dois e corrosivos seríamos se juntos continuassemos. Você disse, até o final, que algo sério seria comigo e só. Eu descobri a sua garota e Hubble, eu até poderia dizer que ela é adorável, porém, depois de tanta manipulação e jogos mentais, só posso dizer que com as informações que chegaram até mim, ela é ideal. E eu aprendi que sexo é muito melhor quando não é tão rapidinho e é muito melhor cedo da manhã, aliás. 

Fica aqui, então, o meu agradecimento por ter sido tão traída e tola, tão enganada e maltratada, um tantão iludida e por fim, liberada da sua feitiçaria toda cheia de perfumes bons e palavras aparentemente únicas que todas escutávamos como eco, uma atrás da outra. Obrigada por me fazer sozinha no mundão pra que eu reconhecesse quem se pode chamar de amigo, thanks to all the constrangimentos você me poupa fugindo sempre, grata serei eternamente por ter logo aprendido sobre a podridão do mundo, eu hoje sobrevivo com os pés mais no chão e um ceticismo que ficaram de herança sua atrás da minha orelha. As minhas coisas, que nunca pude ter de volta e muito menos buscar, torço pra que tenham ido pra uma fogueira sem chance de vida por onde anda alguém tão oposta a mim, tão "sem nem metade do seu brilho, gata", como disse um dos seus amigos gays que encontrei numa balada umas semanas atrás.

Obrigada por ter me livrado de tanta submissão, dos jogos intermináveis no computador, das datas comemoradas nas coxas, dos sentimentos nunca expostos, da não misturança de família a que você era avesso, da sempre minha efusividade cheia de carinhos tortos e beijinhos inesperados tão mal aproveitados por alguém que faltou o pré-primário de como se recebe amor e doa decentemente também. Obrigada por me dizer que preciso de mais, por me mostrar que sou mais, por ter deixado a porta tão aberta que mesmo com os pés sujos quem entrou aqui dentro é realmente quem sabe não ser só visita; eu sou mais feliz hoje solteira que brincando de casinha e aturando cachorros, eu prefiro tomar drinks a cozinhar e até aprendi a flertar e usar minha inteligência pra algo mais que só escrever; alinhada com meu bumbum, te digo com alegria que fazemos hoje uma dupla imbatível. Obrigada por sair da minha frente e não ser nunca mais a única coisa importante desse mundo, obrigada por dar espaço para a minha família voltar a me divertir e minha felina a me aconchegar, grazie per permanecer longe, evitar fotos, não expor seu namoro e nem nunca me importunar. De coração, seu idiota.

P.s. - Escolhi não te chamar de filho da puta em respeito à senhora sua mãe, um poço de sensibilidade e educação que, mesmo vendo o caminhão de merdas que cê jogou em cima de mim, me deu apoio e sábias palavras seguir em frente, firme, forte e ainda mais bonita. A sua falta de caráter, com toda certeza, tem nada a ver com a doçura das mãos da sua fadinha. O Teddy finalmente morreu, hoje faz um mês.


7 Comentários:

  1. Muito lindo seu texto , gostei bastante , bem forte e sincero parabéns www.mandaliveira.blogspot.com

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  2. Esse é um p... texto.
    Ontem eu escrevi que não acredito fielmente no clichê "nada acontece por acaso" , mas depois de ler esse post, creio que sim, talvez de uma maneira cruel. Teve que acontecer coisas terríveis contigo pra tu dares a volta por cima e voltar melhor.
    Parabéns!

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  3. NOOOOOOOOOOOSSSSA Camila!
    Olha, tô sem respirar!
    Vi você vivendo este "amor" e se encantando e se envolvendo e vi seu tapete sendo puxado!
    Mas o melhor é que te vi reerguer ainda melhor, mais BELA e com mais vontade de viver sua vida, do seu jeito!

    Incrível! O melhor texto!

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  4. Caramba!
    É isso que eu sempre acabo dizendo quando leio você!
    Você deve ser um ou dois anos mais nova que eu e é incrível como são semelhantes os seus sentimentos e os meus há pouco tempo atrás!
    Mas você, sem dúvida, expressa isso de maneira mais genial!

    Parabéns novamente!

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  5. Palmas pra quem se liberta de um relacionamento nocivo e consegue transformar isso em palavras tão verdadeiras, viscerais. Espero que assim como você, todas as mulheres que viveram algo parecido, usem do mal que lhes foi causado para encontrar uma versão ainda melhor delas mesmas, com muito mais amor próprio. Uma moça que foi magoada deixa lugar para uma mulher muito mais feliz! Compartilhei, curti, me identifiquei... Esse texto ficou incrível!

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  6. Como observador de histórias e leitor do Calmila há mais milênios que a própria existência da vida, é gratificante ver que você não apenas escalou os estágios de melhora. Você entrou em órbita.
    E assim como joga as facas em formato de palavras na direção de quem lhe fez melhor a longo prazo, percebo que suas técnicas evoluíram. O texto se desancorou do cais abstrato e soa como um transatlântico agora.
    Afinal, dos navios da vida, de passageira entusiasta você virou uma capitã sem medo de conhecer novas rotas.

    Parabéns pelas marcas, srta. Camila Paier.


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  7. Muito bom teu texto! Minha amiga indicou tua página por causa de um post que fiz http://continueanadaar.blogspot.com.br/2014/05/eu-nao-vou-pro-inferno.html nao é tão intenso quanto o teu, mas por algum motivo ela fez a ligação entre eles.

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