Filha da puta também sou eu

6.13.2014 -


Não atendi o telefone. Deixei que tocasse uma, cinco, dez vezes, talvez. O encontro marcado pras 20h, a minha falta de escrúpulos em ao menos dizer "olha, não tô afim de sair hoje não, e contigo muito menos, desculpa". Deixei as mensagens todas num vácuo tão grande que parei de me sentir mal quando ele fechou o baú com chave de ouro e foi  um pouquinho grosseiro. Sociopatia, que nada: um cansaço tão grande da falta de talento em ser boazinha, moça querida que cumpre protocolos e tenta sair com homens que não atraem quase em nada pra dar nos próprios dedos e ver se aprende algo. Era só a primeira vez, mas me senti filha da puta como tantos caras já foram uma vez que outra comigo. 

Sem propósito ou intenção, de repente fui me tornando uma dessas criaturas que olha pro próprio umbigo uma vez que outra com mais frequência. Teve a vez também que desliguei o celular e não apareci. Possivelmente deixei enfurecido o rapaz estrangeiro que se esforçou arduamente pra conseguir marcar algo comigo. A culpa, ela chega uma hora sim, só que sempre tão atrasada que nem consegui sentir na veia, na pele; o troco só é eficaz quando o karma resolve cobrar a bitch que sou de vez em quando. Chumbo trocado com os cafajestes todos - e tantos - da minha lista, porém, mal consigo acertar. Meto as mãos pelos pés, erro na hora errada e quando vi fui a melhor criatura do universo para quem, como eu, não suporta tanto altruísmo num ser só. O passivo-agressivo nos relacionamentos, é essa repetição que acabo pedindo no menu dos meus favoritos.

E então, finjo estar namorando pra evitar investidas, atuo orgasmos, repasso boys que em nada me atiçam e fujo quando o coração sente uma pontadinha de sentimento, ajo como uma verdadeira pilantra porque o amor, ele é o maior dos mau caráteres. Nunca por mal, mas sem querer querendo, quero tanto momentos magníficos com minhas amigas, passar um tempo com a família, aproveitar uma festa sem promessas e preocupações que voto inconscientemente na minha alforria. Numa dessas, me peguei desculpando um dos tipos malucos que adoro me relacionar porque sem excitação, mudanças repentinas, ligações inesperadas e umas alfinetadas a graça ou se perde pelo caminho ou esquece de existir, o que, infelizmente, é o caso de alguns. Minutos depois, numa ida ao banheiro, me peguei conversando com outro rapaz que saia de vez em quando, totalmente ao acaso. Fugi com ele das músicas indie e da cerveja de marca ruim. Até - e principalmente - quando estou num momento de elevação, escolho as fugas pela tangente, os sumiços espaçados, não aproveitar essa deixa de ser bem cuida & talvez amada por alguma irracionalidade que dá pane no meu cérebro e ainda não se descobriu se vem da campo da preguiça ou se simpatiza com a autossabotagem. 

Houve dias em que agi por impulso e falei besteiras em redes sociais que, na minha visão ingênua, ninguém daria um minuto de atenção, vezes que mandei morrer ao invés de matar, e caras que me detestam justamente por fugir deles em festas, falar verdades inconvenientes ou, simplesmente, por não querer nada com nada (muito menos com os próprios). Acontece. Acontece horrores e que bom que esteja sendo então comigo. Quanto mais livre e fiel à mim mesma, mais assumo meu lado de mulher que não vale nada uma vez que outra - tem sido umas tantas, verdade, mas é fase e feito a lua, hoje sou cheia de pés no saco e gramáticas tão corretas que irritam e qualquer moço que me sufoque um segundo que seja. Amanhã, novinha em folha e só deus sabe se vai ter birra, sedução, saco pra nada e pijamas em casa ou mais uma vez meu telefone tocando e mensagens a mil sem resposta nem pena nenhuma.

Um dia de caça, um dia de cão; um dia de caçador, outro de presa. O que não dá é pra sentir obrigação no prazer e as asas podadas pelas convenções todas.


2 Comentários:

  1. Fico sempre assustada com o quanto te entendo! Troco qualquer texto de escritores famosos por suspiros seus, tão verossímeis e assustadoramente semelhantes aos meus momentos.
    Às vezes, a filha da puta também sou eu.

    Sempre sua fã, Camila!

    ResponderExcluir
  2. Boa tarde Camila..lendo atentamente o que aqui colocaste de nada foge do momento atual..
    a gente realmente se sente perdido.. alguns se afundam nas redes sociais que eu acho que só esta criando zumbis todos caminhando em fia e controlados pelo tal celular que sequer tenho pq assim como o mesmo tem chip acho que este esta sendo de alguma forma usado para controlar humanos.. dai sim vendo problemas de todas as especies.. auto sabotagem.. que tem um video no youtube que aborda.. auto sabotagem por hélio couto- saindo da matrix entre tantos outros.. os nós humanos despertamos ou a coisa só vai ficar pior.. escreves muito bem te desejo um lindo dia

    lapidandoversos.blogspot.com.br

    ResponderExcluir