Copa no Brasil: está tendo sim, e ela é das mulheres

6.23.2014 -
Luke, um dos bons amigos que eu e Priti fizemos esses dias por aí 

Sumi por boas razões. A primeira delas: tá tendo copa. A segunda: vivi na última semana um carnaval aussie dutch fora de época tão grande que colhi boas experiências pra transcrever aqui procês. Válidas, memoráveis, factuais e totalmente inesquecíveis.

Porto Alegre, a minha cidade, se contaminou na última semana pelo laranja vibrante e a alegria sincera dos holandeses; pelo mesmo amarelo e verde dos easy going gentlemans a musos australianos. E agora, pela rivalidade gritante dos hermanos quase siameses, os argentinos. As ruas da Cidade Baixa, o bairro boêmio que temos aqui, ficaram lotadas de estrangeiros em busca de companhia, meninas daqui atrás de gringos gatos e gaúchos emburrados por nunca se verem, até então, tão em baixa no mercado dos flertes. Tá tendo Copa sim, só pra contrariar todos os falastrões que disseminaram a dúvida quanto ao evento por aí. Tá linda, tá alegre, colorida, cheia de trocas culturais, e cursinhos de inglês bem aproveitados. Tá, inclusive, sendo o campeonato mundial de futebol mais "das meninas" que já se viu por aí. Elas é que estão batendo um bolão, somos nós que estamos ganhando por w.o. e também chamando a(s) torcidas. Explico.

Ver a cidade florida com rapazes altos, bem vestidos e cheios de boas maneiras mexeu com as gurias aqui dos pampas. Comigo inclusive. Tive a sorte de sair com dois grupos de aussie guys entre domingo e terça retrasados. O prazer de conhecer alguns outros em baladas e nos bares onde os jogos eram postos ao vivo. Almoçar com um argelino. Falar com italianos, combinar pré-festas com americanos, discutir futebol com chilenos. Pra uma menina que foi só ali, até a vizinhança uruguaia e argentina, um grande fato, toda a eletricidade do melhor dos choques culturais correndo nas veias.  E eu que nunca cogitei uma longa viagem até a Oceania já coloquei na minha rota ir para essa terra de praias e clima mais ou menos como o daqui apenas porque conheci pessoas espirituosas, bem educadas e aventureiras do país dos cangurus. Arranjei um relacionamento, agora, à distância com um moço da Holanda - que, inclusive, planeja a minha ida a Rotterdam, coisa que de fato me amedronta. Me vi uma cidadã mais global do que até então me sentia. E de novo, a mesma vontade de largar tudo aqui e ser anônima num outro lugar qualquer me corrói por dentro, monstruosidade essa que desabafei com minha mãe, não sei até quando vou aguentar aqui quietinha. 

A verdade é que foi e está sendo tudo de uma boniteza quase que revolucionária. Assistir as ruas da cidade fechadas, os moços australianos e seus casaquinhos com o transcrito FANATICS ganhando a mim e a milhares de meninas nas noites portoalegrenses com seu charme, seu jeito cortês e uma felicidade sem medo do ridículo que o brasileiro há muito esqueceu foi épico. Os rapazes daqui desconsolados, suas cervejas já quentes nas mãos, eu e muitas amigas pensando "é, guris, agora talvez vocês consigam nos tratar à altura que merecemos!". Meninas driblando o preconceito de fazer o que se bem entender com quem quiser, de que nacionalidade seja. Dando o passe da liberdade a si mesmas como quem diz "ó, tó aqui, pega as oportunidades desse momento único na história do país e vai sorrir, gata". Direto pro gol. Pra cantar alegre Tame Impala na comemoração com criaturas lá do outro lado do planeta, mega surpresas com brasileiras que adoram o É o Tchan, mas conhecem o que vem da ilha deles. Pra fazer amigos de viagens, dar dicas de restaurantes e ajudar na hora de pedir um táxi. E chegar em casa podre, um pouco embriagada, ter que trabalhar no outro dia mas conseguir tirar a maquiagem e raciocinar: que foda tudo isso, que história maravilhosa pra ser vovó e contar sem parar a cada quatro anos pros netinhos.

Tá tendo gringo nos tratando como princesa, uni duni tê pra decidir com qual sair a cada dia da semana, cerveja Original em excesso porque é daqui, papos sobre Angus & Julia, estudos e viagens pra Europa, boas dicas do que fazer na cidade, os bares abarrotados, as festas encharcadas com as gentes mais loucas que essa pequena grande cidade já abrigou e futebol, bem, quem tem chamado os estrangeiros pro campinho é o time das meninas; quem tem feito goleada são os visitantes. Já os moços made in Brasil, bem, esses que tentem apitar faltas e cavar pênaltis até entenderem que o nosso jogo só flui bem com fair play.


3 Comentários:

  1. Vivi intensamente cada dia contigo. É acho que é chegada a hora de alçar vôos maiores! Texto maravilhoso, tão bem escrito que põe muita colunista de jornal no bolso. Agora entendo as tuas viagens culturais que tanto me falaram no teu mapa astral de 21 anos atrás...

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  2. Incrivelmente bem dito!
    Sem mais.

    A Copa é nossa!

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