Gata, ninguém vai te avisar

5.29.2014 -


A gente não se conhece, eu sei. Mas, como mulher e, possivelmente, mais velha, eu me sinto na obrigação de te dar um preview do que vem por aí, gata. Ele é um gentleman, né? Sim, parece. Claro: ele busca em casa, e abraça apertado, e finge prestar atenção em todos os detalhes das milhares de abobrinhas que cê conta. Certo. Ele não é muito de aparecer com você ao vivo, ele diz que prefere a discrição, que é caseiro e o caralho a quatro. Você já deve estar apaixonada porque, afinal, na sua frente ele é um doce, desses que a gente enjoa mas não empurra o prato, não: puxa pra mais perto, é feliz até com dor de barriga. Mas gata, quando tudo começar a ruir e a redoma se fechar numa merda só que você talvez nem calcule existir, ninguém vai te avisar, não. Infelizmente.

Ele se cuida, é bonito, malha horrores e ainda tem tempo pra falar com você o dia inteirinho. O que poderia ter de errado? Bem, ele pode não gostar de envolver família e preferir que os encontros sejam muito mais na cada dele que na sua, mas e qual o problema disso? Ele entende de música, e dá bons conselhos, é querido e puxa a cadeira, serve a comida e tira seu prato depois do jantar. Acontece que ele é esperto, esperto demais pra tanta bondade e regalias que aparentam ser espontâneas. Você vai conhecer os amigos dele, que sempre vão ficar meio na defensiva por já terem presenciado situações demais. E aos poucos, e sem compreender, quiçá sem nem notar, vai cavando um abismo onde pensava existir flor. Fertilidade pouca é bobagem: você foi ingênua mesmo a ponto de pensar que o conhecia bem? Bobinha.

Isso porque ele vai começar a evitar certos locais, detestar exposição, demonstrar cada vez menos amor em público. Você pode pensar que é o seu cabelo de mau humor, a roupa excêntrica que o envergonha, um dia de humor ruim que faz nebular o amor, eterno amor, que ele jura que será fruto de filhos e viagens românticas ao exterior. E sexo, sexo é secundário, né? Tudo bem caso você não queira dar. Tá ok se ele não quiser te comer mais. E ah, você vai estranhar, mas pra que libido quando se dorme de conchicha e ele faz café na cama? Pra que amigos próximos se ele joga video game e conversa com você ao mesmo tempo? Pra que olhar o celular dele se vocês confiam um no outro, certo? Essa menina que ele adcionou é uma amiga antiga, aquela outra que curtiu uma foto é amiga da praia e ah, ele é tímido e não posta nada nunca, foto de vocês é desnecessário e só caso você implorar. Que outra vida ele pode ter, você pensa, se nos finais de semana o cursinho pré-casamento onde você cozinha, ele lava a louça, vocês arrumam o apê do litoral ou a casa do sítio anda correndo a todas? Bem, todos sabem, mas fica difícil chegar assim e dizer, afinal, tão reclusa do mundo você lá no alto do seu mundinho particular - ele, um manipulador de primeira, ainda adquiriu todos os jatinhos, naves e aviões de resgate. Logo é a bolha furada e você catatônica buscando um pouso seguro, amparo em meio à gravidade, cair com os pés no chão de uma altura onde isso já não existe mais.

Eu até queria, mas nem dá. Não posso. Se pudesse chegar num cantinho de festa e dizer "ei amiga, cê é a nova corna do pedaço, larga fora", mas não - vão chamar recalque, vão dizer que é inveja ou coisa parecida, quando na realidade hoje se chama desprezo. Eu poderia te mostrar a feiura das cicatrizes que ficaram em mim ou os detalhes mais sórdidos do que ainda vem por aí, mas sou uma estranha, sou menos que a sua intuição e é provável que seja nomeada "inimiga". Queria horrores que alguém pudesse noticiar, mas torço daqui que cê seja esperta o suficiente pra não cair na lábia de um egoísmo disfarçado, pra não se deixar levar por promessas e juras e treine o olho para quando ele levar o telefone junto até para ir mijar, e note como ele fica desconcertado ao falar das ex-namoradas e veja que ele a escolheu não por motivos de amor mas por ser a opção mais fácil dando sopa no banco para colocar no jogo do seu roteiro sujo de criatura podre que é o que só ele sabe ser.

Gata, ninguém vai te avisar, mas eu espero que você consiga ouvir os alertas de uma história que, daqui, todos já sabem como vai acabar: em cilada, cilada, cilada.

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