Carta para uma amiga vendada

2.02.2014 -



Querida amiga,

Em primeiro lugar: nunca é proposital te magoar. Você está cega e eu apenas tento te guiar para a saída deste labirinto onde o prêmio é alguma iluminação ali no final. Apenas, entenda: eu fico chateada pra caralho em assistir o seu rastejo atrás de um babaca desses. Eu poderia facilmente me fazer de louca e dar uns conselhos meio podrinhos, desinteressados e cheios de clichês. Mas, não, opto sempre por jogar a verdade na sua cara feito água gelada porque torço pelo seu despertar dessa merda toda. Porque não é possível. Quer dizer, até é. Para mim, que estou de fora. Para o resto do mundo, que olha e nota todo o seu valor se esvaindo pelo ralo por um mimadinho filho da puta.

Aí eu te chamo pra sair e digo: não, não, não e chega. Aqueles teus olhos se arregalam e a minha raiva sobe o sangue, porque porra: adianta dizer que é melhor não ligar? Que se ele já deu em cima de uma amiga vai arrastar asa pra outra, que ele combina coisas e some porque na cabeça dele achou algo "melhor", que ele que morra, esse doentinho que não sabe se decidir. Sinto raiva só de escutar o nome do dito repetido de oito a nove vezes, tenho vontade de vomitar quando no meio da madrugada ele manda algumas mensagens e te teletransporta pra qualquer lugar que não as paredes escuras da festa que toca rock. Dá vontade de, eu mesma, catar o telefone desse pedaço de lixo e mandar "escuta, devolve a minha amiga que eu - e qualquer outro rapaz - fazemos melhor uso, seu idiota".

E mesmo quando algum cara a olha ou chega pra conversar. E também nas vezes que tu se interessa por alguém: a relação inexistente que esse Houdini das ilusões te enfiou impede qualquer outro passo em frente, em diversas outras direções que, é bem provável, sejam caminhos mais agradáveis. Eu pensei em pedir desculpas pela rudeza da noite passada, mas quando a ficha - já caída, já estática - me lembra do cansaço que te escutar puta ou triste por um egoístinha eu só consigo tratar esse inútil com o maior desprezo possível. A gente já está calejadas de salafrários e, se uma pessoa cuja felicidade para mim é uma torcida, possivelmente ela tenha o seu nome na identidade e seja uma guria incrivelmente autêntica como tu.

Não me odeie. Pare de pensar que sou uma bruxa maldosa que não a quer do lado do cara que tu escolheu pra chamar de seu. Mas entenda que quem não compra as nossas brigas não dá aquele tanto de importância ao nosso bem-estar. Troca essa raiva da minha mão na cintura e da cara de quem tá puta com a situação, a frase ali na ponta da língua querendo esbravejar em cima do sujeito, e entende que a realidade é cheia de monstrengos disfarçados de cordeirinhos de sorriso fácil, de ogros com coração de ouro prontos pra te tratar como princesa e de muita gente aí em polvorosa pra saber o que tu gosta, como é a receita pra te fazer feliz.

Deixa, vai, que eu tire essa venda feito curativo antes do banho: rasteira, indolor. E então, os olhos livres e afoitos, a inocência de quem aprendeu a ver a pouco e se encanta com o mundo todo cheio de possibilidades que borboleteiam. Longe mim querer assassinar as tuas ilusões, bem capaz. Meu papel é tentar te abrir pro mundo, pra que não te flechem em vão. É assinalar em vermelho elogios valiosos que não te fujam à vista, é valorizar aqueles que sabem apreciar a sua autenticidade e ajudar no processo de desapego dos imbecis de plantão.

Amiga, abre esse olho. De coração.


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