O dia em que virei minha mãe

1.09.2014 -

Foi num sábado qualquer, no bar de sempre, perto das 21h. A popularidade do local aumentando, os aniversariantes escorpianos comemorando em ritmo frenético - outubro ou novembro, concluo - mesa nenhuma disponível. Cliente da casa, o nome sabido na ponta da língua, dos atendentes ao caixa. E de pé, no aguardo, ansiosa, cheia de fome e sede, sem a menor paciência pra esperar que os vinte convidados do gordinho suado se retirem do recinto. Elevados numa conversa em roda, eu prostrada junto ao balcão, as cadeiras todas vazias. A minha cautela ruindo feito a bateria desses smartphones de atualmente: caía uma bela porcentagem a cada cinco minutos em que me via suspensa expectadora das comemorações alheias. A arte da espera é algo que não domino, nem os nove meses completos consegui passar dentro do útero materno. Logo me vi gesticulando, jogando charme pro moço baixinho que sempre traz a pimenta certa, argumentando com o gerente que, olha ali, nem sentados estão! Pô, venho aqui todos os finais de semana, tu sabe. Se querem mesas, que sentem, comam, façam bom proveito do atendimento. E, menos de dez minutos depois, sentada e sorrindo enquanto fazia o pedido, processava a informação: aos poucos, a gente vira a mãe da gente.

Quando eu era adolescente - ou, possivelmente, pré - o local favorito onde o trombone de mamãe era sempre levado à boca e as palavras caíam em cima dos atendentes era o Mc Donald's. Todos sabemos que o serviço lá é um lixo, a comida uma porcaria industrializada, os brinquedinhos perecíveis, mas íamos com mais frequência na franquia perto do seu trabalho e era ela começar com as alegações do que estava errado no pedido para eu me afastar e sentir o rosto quente, quase carmim. Depois, a reprimenda. Mãe, pra que isso? Não dava pra falar mais baixo, não? Tá, tava errado, mas poxa, que vergonha. Fingi que não te conhecia. Quando a gente não tem a mínima noção do valor das coisas e dos direitos todos que temos, normalíssimo e aceitável calar e engolir qualquer coisa que o Ronald jogue correndo na nossa bandeja. Não que minha genitora fosse mal educada, longe disso - porém, criada no interior, quase numa colônia e ouvinte do dialeto italiano da família, era demais que eu pedisse keep calm, mother. A voz que um descendente da Calábria emite e a que escuta nunca são no mesmo tom. Sem o rótulo de barraqueira, fui ensinada desde cedo a questionar aquilo que me parecia fora de rota. Mesmo que tenha despertado pra tal prática aos poucos e tomado ciência depois de duas décadas de idade.

Disse pra minha amiga que nós fugimos, condenamos, rimos nas costas, mas: sem perceber, pegamos traços de quem nos cria e juntamos ao DNA emocional e psicológico também, resultando numa versão mais light ou autêntica com um dedinho nossa. É sem ver ou sentir, é a Elis cantando que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos; exatamente como nossos pais, com qualidades e defeitos de quem criou, cuidou e mimou a gente desde os primórdios dessa desventura que se intitula vida. Olhei pra tática toda que tramei: a voz bem torneada na direção do garçom, o discurso planejado junto a um dos donos do bar, o sucesso em questão de minutos de estar com o bumbum colado na cadeira amadeirada, um pouco por fidelidade e outro tanto por traquejo e dissabor. E fiquei feliz com os ensinamentos ocultos que a gente toma nota e coloca em prática, do nosso jeito e aos poucos, no futuro.

Tem dias que essa mesma mãe que tenho se atrasa cinco minutos e já começo a ligar incessantemente porque dá uma agonia não saber por onde ela anda e se está chegando. E que acordo cedo, me enrolo entre o café, a roupa pra vestir e escovar os dentes assistindo tevê. Bebo cerveja, faço piadas ruins, assisto futebol e ouço discos antigos. São nessas as situações em que incorporo meu pai, mas isso é um assunto que apenas a mesma mulher que convive comigo e com o clone do Humberto Martins lá em casa conta com credibilidade. 

Eu, no fim das contas, apenas imito.

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