Isso é um fora, aceite

1.29.2014 -


Olha só, é porque você é muito baixo e isso me faz sentir enorme, é por isso que não vai rolar aquela cerveja. Sabe o que é? Pô, cê ficou atrás de mim todo hora, perguntou aquela babaquice de "a gente se fala amanhã?" e eu me senti claustrofóbica por um minuto porque só queria a leveza de uma criança que anda balanço na pracinha: me divertir. E teve a vez em que a gente se beijou e foi ruim pra caramba, o fato de você ter escrito "concerteza" e eu ter vomitado toda aquela boa primeira impressão no mesmo minuto. Ou o dia em que a gente transou e você fingiu que eu era mais um dos restos do talharim da noite passada, na manhã seguinte. Isso sem contar aquela noite em que você me perseguiu a festa inteira e a situação constrangedora do seu discurso rude e, depois, os gritos no formato do meu nome ecoando pela porta do recinto. Até que a minha liberdade começa a valer mais que qualquer cara no meu pé tentando colocar no lixo toda essa minha independência arqueada.

Dá uma pane e eu sempre sei quando está prestes a ocorrer: O sorriso vai perdendo o encanto, a língua mole dentro da boca irrita, a forçação de assuntos momentaneamente desinteressantes estrangula a minha voz e quando começo a calar é que se borda aos poucos o fim daquilo que ainda nem germinou. Poderia ter sido uma linda historieta de amor se não quisesse tanto, à base de fórceps e certa brutalidade. Depois de tanto sufoco, eu descobri que todos os vocês não aguentam um sumiço, uma resposta informal e fora nenhum pelo simples motivo de: eu não querer mais, desculpa. Nem a educação me salva, nem ser muito grosseira faz compreender. Dizer "não quero, não quero e não quero" gera uma curiosidade irritante e um autoengano dos brabos. Muito menos que quer ficar com outro cara, ser monossilábica ou fugir. Pode soar feio, mas por mim eu continuar os cumprimentando socialmente em noitadas ou num encontro repentino em um parque qualquer da cidade.

A questão é que: depois então da sinceridade do tchau, do serial killer de egos, do puta toco, a amizade? Qualquer carinho meio torto morre lento junto com o tal desejo em neon de colocar "minha minha minha" no topo mais alto da cidade. O fora, quem é que aceita isso? As mulheres, de melhor grado. Ok, se ele não quis, tudo bem - e chora, e questiona as amigas, e até pensa nisso uma vez que outra durante o dia, mas tão logo o próximo bate à porta e entra pela janela ou aquele confirmado busca em casa pra dar uma volta: passou. Há as que ficam dias e dias em sofreguidão, claro. Mas, após um tombo e outro e o coração em cacos, aprende-se que nem é preciso ódio ou descarrego; geralmente eles voltam, e então é com um desinteresse genuíno que não se quer mais e pronto. As respostas chegam - de carruagem, montadas em compasso de espera e finas justificativas. Escoladas, a gente coloca as galochas e prefere ir a pé.

Agora, os caras, ah, os homens não. É ódio e guerra, é diminuição e culpa, é ela uma bruxa, uma falsa, uma enganadora, essa piranha, ela não é nada do que disse, viu? Quem foi que falou mesmo que mulher tem a opção de dizer não depois de ter dito meio sim, depois de ter rido da minha piada fraca, de ter sido estuprada pela vida e possuir um buraco no lugar do coração? Eu é que não faço ideia, só sei que a sociedade parece ter marcado algumas aulas de reforço e convocado uma parcela esmagadora dos mocinhos de plantão. A matéria: remorso porque ela não me quis ou, como-sobreviver-depois-de-ter-caído-nas-teias-de-uma-safada-filha-da -puta. E ela que aguente o climão, a minha cara de cu, e os maus tratos caso se dirija à minha pessoa depois de ter feito um recusa dessa estirpe.

Ela não quer? É charme. Não é sim e sim é sim também, oras. Ah, tá só dando uma volta pela balada, não é que queira curtir com as amigas ou como bem entender. Pensa que pode fugir, que não tem a obrigação de sair comigo se combinou, agir com apatia quando elogio e fico em cima e não dou paz e nem sossego e envio músicas e quero discorrer filmes europeus durante o dia. E ainda se sente no direito de não me atender, ignorar algumas mensagens, querer curtir sozinha e ser um pouco grosseira diante das minhas investidas. E de dizer não, caso queira, esse palavrão de três letrinhas que apaga esperanças e golpeia a fundo a autoconfiança. 

Quer dizer: eu não atendo essa chata nem a pau e muito menos retorno, mas porra, é sério que aquela  "mais difícil" não me quer?

Uma criatura que descobriu que é bom ser solta e aprendeu a dançar o ritmo de cada possibilidade. E que diante de tantas opções não vê motivo para tão cedo se prender numa única estação. 

Toca no repeat aquilo que sabe escolher e ser escolhido sem amargura ou permissão: por escolha e identificação, simples.

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