Umbigo alto, barriga chapada e os tais padrões que nos destroem

12.01.2013 -
Esta é a obesa Leah Kelley

Alícia, minha irmã mais nova, está de dieta. A própria, no alto de seus raros nove anos agora evita comer demais, agradece e recusa sobremesas e analisa a própria barriga no espelho sem que eu note de vez em quando. Não é nada excessivamente restritivo, porém, para caber na fantasia de anjinho do ballet e na outra, de fada, da festa de final de ano da escola, não pode engordar. Numa casa onde a culinária italiana faz parte da realidade da família, é um desafio e tanto. Quando ela me pergunta se também já tive uma quantidade considerável de tecido adiposo no abdome respondo que, sim, era até mais cheinha com a mesma idade. É o suficiente para me teletransportar mentalmente até o ano 2000, onde analisava, de modo tímido, minhas suntuosas curvinhas no banho - hábito esse que se mantém até os dias atuais.

Fixo na minha memória até hoje, o episódio em que detectei o primeiro vasinho na minha coxa direita deixou marcas. Fazia um sol radiante e sem companhia de nuvem alguma, soberano na imensidão do céu azul. Estava de biquíni e, ao escutar que talvez não saísse mais aquele risquinho que deformava minha perna de maneira tão precoce, desatei o choro engasgado. Por um bom tempo, não houve genética que explicasse, exercício que eximisse a culpa, praga que me fizesse olhar pra "deformação" com algum carinho. 

Era um fato no mínimo triste ser maior que os colegas aos 12 anos e ainda ter exposta na pele o lado ruim dos meus genes. Ser comprida demais, ter peso em excesso e ver na derme os efeitos de tantos hormônios representando algum crescimento me fez, desde muito cedo, uma curiosa por dietas e obcecada com o próprio corpo. Hoje, uma preocupada - assistir alguém que vi nascer participar de uma sociedade cheia de conceitos cada vez mais deturpados me alarma. Como fazer com que uma criança que não possui nem ao menos uma década de vida aceite o próprio corpo enquanto o coleguinha a chama de gorda do outro lado da sala de aula? Com tantos complexos já enraizados, fica difícil passar confiança se, de jeans 38, ainda não sou magra também segundo o guia de medidas que precisamos seguir se for desejo nosso estar dentro do que se chama de aceitável.

Certa vez, comprei uma Capricho onde a Wanessa (ex-Camargo, mas filha do Zezé) estampava a capa do mês. Magérrima. Uma barriga barriga chapada de dar inveja às tais famosas "negativas" de hoje em dia. Perguntei à minha mãe, recordo, como era possível a cantora ter o umbigo tão lá em cima. Sem conhecer ainda os adventos da era digital e, entre eles, o poder dos editores de imagem, era assustador para mim que alguém conseguisse superar a falta de pança da Britney aos meus olhos. E fazia abdominal. E caminhava alguns dias na semana. E subia e descia as escadas de casa umas dez vezes até completar uma hora. Passava creme anticelulite e às vezes, jantava Dietshake. 

Aquela barriga representava para mim um furo pra cima demais e um ideal de beleza que criei com o passar dos anos. Tinha 13 e meu maior desejo era colocar piercing e me sentir à vontade apenas de top e short jeans no verão - algo que, talvez conquiste nesse, depois de muita reeducação e algum compreensão de que, o projeto verão ou a-barriga-daquela-moça precisa ser um plano pra vida inteira, sem pressa ou efemeridade. Que comer saudável é, antes de tudo, uma questão de saúde e não de estética. E que é bom pra cacete ir pra academia, fazer um treino bacana e liberar uma quantidade de endorfina que praticamente dopa pelo resto do dia. 

Essa semana, li por aí que a belíssima Leah Kelley é a nova queridinha do universo plus size. Por algumas marcas, pelas edições de algumas revistas do ramo, por pessoas que talvez não compreendam a dimensão que é estar fora do que se tem como convicção do que é bonito de acordo com o mundo todo. Essa menina, a nova Gisele Bundchen com curvas, usa manequim 38/40, assim como eu - que, diga-se de passagem, nunca estive tão em forma. Se para uma menina normal, com peitos grande ou quadril largo, cabe o rótulo de gorda, o que fica para as que realmente estão com quilos em excesso e não se sentem enquadradas num mundo onde a moda prefere que fiquem escondidas atrás de maiôs?

Depois de bons anos lutando para subir na balança e conseguir sorrir depois, percebi que é mais digno começar a, com afinco, começar os trabalhos para ficar leve: mas na consciência, de que o padrão mais seguro a se seguir é o de ser forte. Por dentro. Ainda mais numa sociedade com sobrepeso de ideias vazias e que degusta com ferocidade a nossa qualquer bem-estar que a gente construa.

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