Meus doze

12.17.2013 -
Algum trauma lá no meu passado deve explicar essa dificuldade toda de romper laços e finalizar ciclos. Hoje foi meu último dia com as crianças lá na escola. Acordei pensando que não mais faria rodinha, oração, livro de atividades e hora do lanche com os doze discípulozinhos que cativei pelo caminho. E segurei pra não chorar, já de manhã - porque não adianta muita coisa, eu no fundo sou essa manteiga derretida que se emociona sempre. E lembrei dos mais de nove meses em que passei cinco das 24 horas do meu dia recebendo - e ensaiando dar - o maior afeto desse mundo.

Lembrei das perguntas sem resposta e piadas inteligentíssimas do carismático Lucas, dos olhões lindos e enormes da Cecília, que falava "salsiça" e "zenti" e, na reta final, toda mocinha, já se corrigia e acertava as palavras. Dos mil e um batons que a vaidosa Maria Sophia levava pra aula e eu tinha que frear o uso, excessivo. Dos "vocês" todos da Mariana, que chegou de São Paulo no finalzinho do ano, mas ganhou a todos com aquelas bochechas irresistíveis. Da fugas pela escola e partidas de futebol onde eu era sempre a goleira com o Matheus, dos desenhos inspirados e cheios de cor e histórias da tia, da vó, da prima da Joana, sempre ricas num mar de detalhes. 

Segurei mais um pouquinho pra não me deixar olhar uma última vez sem estremecer pros olhos profundos do Gabriel, um curioso por natureza que me nomeou de Hulk nos momentos onde a paciência faltou - mas me elogiou a cada dia em que fui mais arrumadinha, dizendo que eu tava LINDA, assim, maiúsculo. Dos beijos espontâneos, colos de ninar e penteados que eu e a Elisa confidenciamos, do tamanho todo da Ana Clara, que sendo sempre tão madura me auxiliou nos momentos onde precisei chamar algum outro profissional ou segurar a barra da turma. 

Da seriedade do Bernardo, o meu negrinho caprichoso e dengoso, sempre com um lugar vago reservado pra minha ilustre presença. Da Yoko, essa mini-fashionista que ri engraçado, alto e gostoso e ainda vai ser a menina mais cool dessa cidade. E do Jean, que ainda não fala, mas sempre me comunicou que gostava muito com um polegar pra cima, que queria me dar um pau quando eu chamava atenção, mas que vinha todo risonho abraçar apertado na hora em que a bandeira branca se fazia necessária. 

Eu, que entrei totalmente por acaso na Escola Mãe Admirável - para ter horas complementares comprovadas pra um intercâmbio, que deixei em stand by - me apeguei a esses serelepes e, no fundo, não me arrependo nem um pouco de ter trocado um ano fora do país pra viver do lado da minha família e poder, ainda assim, aprender a cada dia como é que se cresce aos poucos. Vi que não precisamos deixar o nosso ninho pra, quem sabe, voar e zanzar por aí pra, só então, se reencontrar. É fácil se redescobrir, a gente é que estagna na vida e dificulta demais, deixa faltar boas doses de cautela e se esquece com o tempo que rir de tudo é tão mais solução que problema.

Apresentei a esses pequeninos seres o mundo dos números e o universo das letras, cantigas antigas, a corda de pular e a importância do lanche saudável (o salgado sempre primeiro, disse milhares de vezes). Em troca, eles puderam me ensinar que o dia da gente pode tá sendo terrível, mas que sempre dá pra fazer piada da desgraça e logo abstrair, pra depois brincar no pátio. Aprendi que pedir desculpas é questão de honra e que é mais fácil logo voltar a se divertir, que pintar com tinta é uma bela terapia e que se tu disser que gosta de amora, namora. Se for melancia, dorme na bacia. E que mais do que mágico, é espetacular participar da educação e do desenvolvimento de um minúsculo alguém em formação.

Eu não sou "profe", acatei a nomeação porque acho que seria feio recusar um apelido tão singelo e bonito e que ficou ao longo dos meses. Tampouco tenho alguma base pedagógica: minha experiência era toda baseada no help da criação de dois irmãos mais novos. Mas a linguagem do amor, ela é universal. E quando a gente gosta de criança se torna meio fluente nisso. É um belo caminho andado.

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