Rainha de bateria na Estação Eterna da Autosabotagem

11.23.2013 -


Tá grave, doutora. Eu acordo, e gasto dez minutos do meu tempo, esse líquido precioso em espreguiçadas e bocejos e fecha os olhos, abre, só mais dois minutos, o que tem hoje no café da manhã? A gente acorda e tem mais ou menos doze horas num dia pra pagar contas, pintar unhas, dobrar roupas e ainda fazer stiff na academia assim, com calma e concentração pra não foder a coluna. O meu relógio - que não é biológico ainda, mas sim genético - gira os ponteiros num balé agitado e até bonito, mas que no final das contas me contunde quando vou abrir o espacato final: mais calma, o mundo chia; não corre guria, aproveita os lampejos de não fazer nada pra tornar cada minuto perdido comendo a cutícula pra crescer na vida, emanar mantras e comprar passagens pra São Paulo. Por enquanto, eu apenas me consagro rainha de bateria nessa Estação Eterna da Autosabotagem, posto que nem Vivi Araújo tasca com o pé cheinho de samba.

Ia escrever um texto mas, fui olhar pela janela. Pagar as contas todas, e resolvi usar a grana pra pedir mais uma cerveja, amigo, eu desço ali na esquina da Demétrio com a Espírito Santo, moço. Peguei o livro na mão, tapei me corpo até a cintura com edredom fininho e manejei o ventilador pro vento não pegar no rosto nem nas costas. No primeiro parágrafo, dormi tão profundo que sonhei com nomes que não escutei tão recentemente, gente que nem lembro ter visto, uma igreja na Croácia e sabe deus porque toda essa maluquice. E depois dos almoços, mesmo tendo caminhado-corrido-caminhado-corrido meia hora por dia, o chocolatinho segue na receita do meu cotidiano. Tomo refrigerante às vezes, visito sites e uso cremes e quase choro quando olho para a minha celulite. E como, e danço, cantarolo um refrão e olho programas de domingo apenas para fugir de um tédio que merecia ser bem aproveitado e quase nunca consegue.

Eu sambo, sacolejo bem nessa arte de deixar pra depois porque agora minha nostalgia urra por vídeos do Snoopy. Rebolo para pegar roupas que mofam a meses na bagunça da costureira, comprar lanches saudáveis para o resto do dia, e carrego o peso de uma sacola onde soco tudo que qualquer pessoa que inicie o dia na academia precisa - de shampoo à chinelo de dedo, de toalha a reparador de pontas. Nessa maratona, com extensão equivalente a uma Sapucaí lotada, preciso refazer o currículo mas estou vendo pela quarta vez os vídeos dos meus alunos. É importante agradar aos jurados, mas lá vou eu responder cruzado pro pai; ali estou cagando tudo com mais um cara porque eu sou assim e se não quiser desse jeito ele é quem se dane.

Porque uso essa faixa e carrego o fardo de sempre ter um baita potencial que ainda não aprendi a explorar. O que me coroa não é a capacidade em se sentir tão bem praticamente nua na própria pele e muito menos tamanho de quadril, músculos ou a desinibição de quem faz  o sambódromo inteiro cantar junto. É preciso uma quantidade avantajada de overthinking em intervalos que a preguicite de forma aguda ataca.

Minha carne é de carnaval e com a minha disposição e afinco é igual: de um bloco a outro, uma ideia joga serpentina daqui enquanto outra pequena obssessão junta cada pequeno confete pra jogar pelo salão. O coração, mais que rodopia, derrapa e dança. Aprende.