Purgatório

11.02.2013 -

"Sabe o que é? Porra, não, tu não sabe. Nada de parecido te aconteceu, claro que tu não tem nem noção"

Um lencinho, um aperto na mão imóvel sob a mesa, um olhar de incentivo e amabilidade, pra que a expurgação continuasse, pra que não sobrasse centelha nenhuma daquele dilúvio todo. As patadas, até mesmo essas ações que antes arranhariam um pedaço da minha docilidade, agora mais pareciam uma dança desesperada por afeto, atenção.

"A gente vai lá, vive a ciranda de ser solteira, acha todo mundo muito meia-boca, as criaturas todas bem mais ou menos, até que, tó: num banho de água fria, se apaixona. Não existe mais cabeça, não existe mais razão, lá se foi o discernimento. Daí em diante, somos então umas amebas com tremeliques e suspiros em meio de tarde. Se não somos, nos tornamos românticas. Escrevemos cartinhas, compramos lingerie bonita pra colocar antes de dormir, e se bobear, nos domingos até levamos café na cama - porque, tu sabe, a gente faz essas babaquices, não adianta. E, pra que? Pra tomar duzentos chifres num ano. Pra pegar doença, ter o útero fodido e ter que fazer curetagem. Pra ser chamada de louca de pedra, criança infantil e virar motivo de piada, porque, claro: não bastasse o filho-da-puta do cara foder o meu corpo, minha cabeça e o coração, ele ainda tem que ter a merda do ego quilométrico dele por cima na história toda. É pra matar qualquer um"

Um copo d'água com açúcar, uma respiração profunda e prolongada, mais uma tragada no cigarro. Tinha dias que um medo horrível de a deixar sozinha me assombrava digitando assim, qualquer e-mail. E então eu escutava um pouco mais porque é de mais ouvido e quase nenhum conselho que gente que costuramos ali, feito bonequinho de feltro perto do peito da gente, precisa.

"E agora, ele me ignora. E quando responde, é pra ser irônico, tirar sarro. Tu acredita nisso? Penso às vezes no meu enterro, aquela comoção toda, as flores maravilhosas que me levariam, e ele com medo de ir e ser linchado. Aquele dia, lembra? No verão. Foram só cinco comprimidos, mas juro que por mim, se não acordasse no outro dia, conviveria numa boa com um inferno novo que não fosse esse aqui. Qualquer outro lugar, aliás, onde o diabo reinasse e ele não fosse esse idiota, Lúcifer seria mais humano. Eu tô fodida, cara. E ele, se ralando nessa droga que é a vida? Nunca. Tá lá, sorrindo, gastando pra caralho, enchendo a cara de vodka e deslumbrando meninas interesseiras. Eu fico aqui nessa porcaria de quarto umas duas horas de manhã tentando me agarrar a um motivo de força maior que me faça levantar dessa merda e ir viver. Colocar uma blusa que não me sufoque de calor, vestir uma calça sem me achar terrível. E toda vez que vou desopilar, volto mais desapontada com o comodismo da sociedade toda, com a minha falta de autocontrole, com essa doença que se instalou em mim. Deus do céu, queria acelerar uns cinco anos e colocar uma clone pra me representar"

Uma reza mental, o choro soluçado, meia-hora gasta numa conversa monologada onde saia pra fora o horror todo que é calcular os riscos. A minha paciência fazia força feito um rinoceronte pra aguentar um sofrimento injusto e em tal proporção. A vontade era abraçar, como se ninasse um pedaço de  argila e fosse possível moldar um humor novo, qualquer expressão otimista na face. Com carinho, um olhar bem direcionado com os dizeres "estou aqui, continua", e era possível ver a alma deixando a fosse com medo e lentidão, porém, decidida nos passos.

"A gente nunca sabe. É impressionante. O cara leva pra uma porra dum final de semana em Gramado, te traz flores, manda mensagem sentimental logo quando acorda e liga sempre antes de, supostamente, dormir. Faz a merda toda, consegue pegar numa merda de sono, olhar nos olhos no dia seguinte e, jesus, ainda mente que nunca faria. Nem seria, o pobrezinho, capaz de cometer tal atrocidade. Eu sou ingênua, tu sabe que meu traço mais cândido é achar que tudo é possível. É foda, sabe. E, depois de descobertas as sujeiras todas, foge como o diabo da cruz, dá no pé e se esconde no conforto do papai e da mamãe, na vidinha medíocre de quem pensa só no próprio umbigo. Ah, mas se eu pegar ele na rua, Camila, eu mato. Eu destruo. Nem penso, vou lá e ó, dou um jab no queixo, nocauteio sem pena. Afinal, bem mais que pra queimar calorias e extirpar esse ódio todo é que eu voltei pro muay thai, não é?"

É, é sim. E porque a psiquiatra recomendou, o pai acha ótimo para a defesa pessoal, e pra conseguir viver sem se auto-sabotar em ao menos uma hora do dia. E para liberar endorfina e ver se conhecer algum cara, quem sabe, no caminho pro vestiário, mesmo que com outfit de mendiga e sem nada disso em mente - embora não seja hora, há que redesenhar a luminosidade furtada entre um susto e outro no escuro e testar em algumas tomadas por aí. Quão triste é ver uma flor sob o sol ameno querer se despedaçar sozinha?

"Mas, chega. Eu já chorei demais e tô sofrendo há semanas e nem eu me aguento. Não falo mais dessa merda toda, é só começar a tirar a casquinha pra ferida jorrar jorrar e atrasar todo o processo de cicatrização. Eu tinha esse vício quando era criança, sou alérgica a mosquitos e andava com as pernas cheias de marquinhas por aí. Só queria parar de olhar pra isso e tentar deixar de me foder um pouco. Aos poucos eu vou indo, tu vai ver. Depois que esse castigo temporário acabar e essa pica de alma antiga que não me serve mais for pra cova, eu to aí: mais forte, mais mulher e com uma cicatriz grande pra caralho, que pode não ser percebida assim, a olho nu e cansado, mas que numa observação mais profunda fica tão perceptível que às vezes até assusta. Alguém nesse mundo há de achar ao menos bonito essa montanha de aprendizados que se desenhou nas minhas costas, sim. E daí quem sabe eu convide pra cavalgar comigo por aí. Quem ele pensa que é, sabe?"

Um imperador das próprias vontades, o reizinho mandão que comanda quem estiver disponível na arte da manipulalção, um escroto de carteirinha. Deve achar incrível destruir uma pessoa desse jeito, ou gosta de se vangloriar pros amigos que tem alguém morrendo aí porque ele é fodão. Talvez se sinta tão culpado que não consegue olhar nos olhos e, mesmo que não queira recuperar o amor doentio, não consegue pedir perdão com decência. Sei que não passa duma merda de um egoísta filho da puta.

E é feio a gente ficar um pouco feliz pelo livramento de quem queremos bem? Se for da micharia de viver, acho até carinhoso. Mais que beijinho na ponta do nariz.