Why so serious?

10.06.2013 -

Era a terceira festa que ia dentro de duas semanas e ouvira, estupefata, o discurso: "olha só, você é uma menina bonita. muito bonita. bonita até demais. mas aí se estraga com essa cara de séria, emburrada. não dá um sorriso. ri aí, mocinha. quando a gente se abre pro mundo e parece mais leve, atrai isso pra nós também". Um era muito velho e estava acompanhado do namorado. Outro, beijava a minha amiga enquanto eu comia cachorro quente e era um pouco ríspida. O último, queria me beijar mas perdera a vez depois dessa lição de bem-estar indevida. Séria, um pouco porque sou dessas criaturas que levam tudo à ponta de faca; outro, porque é que tem dado pra ser nesse momento. 

Why so serious?, me perguntaria talvez o coringa de Heath Leadger, a navalha em mãos torcendo pra que eu mostrasse os dentes. Um desses fotógrafos de balada me flagrou, os olhos bem pretos quase cerrados, a expressão fechada, o cabelo bem ajeitadinho, porém a boca pequena que tenho não se abria pro mundo e de repente eu me fechava em mim mesma também. Dançavam hip hop, rap, pop à minha volta e eu mexia um pouco o corpo apenas para não fazer uma total desfeita ao clima agitado da noite. Como me tornei tão amarga e pessimista? Foi agora ou sempre pareci maltratada pelo tempo e nada aberta às pessoas todas, aos ritmos musicais, ao que de bom quase escapa pela mão e nunca me preocupo em pegar? Lembro de uma pureza de anos atrás em achar que cada saída me traria algo de bom, quer fosse uma amizade ou bebidas baratas. Essa doçura quase infantil, pelo caminho, por certo perdi.

Todo dia de manhã, depois de me vestir para enfrentar a rua como quem vai matar alguns leões a cada esquina que passar, coloco óculos escuros se não faz tempo feio demais. Escondo a expressão dos meus olhos justamente para não ser tão julgada por não participar dessa obrigação de felicidade forçada em que os não-rebeldes se movem. Minha boca, minúscula, continua ali, costurada no ar pesado em que as situações desgostosas todas serviram como pano de fundo. Me recuso a participar dessa ciranda irreal porque sei que tempos de corpo fechado são necessários para se fazer o balanço. Ou, ao menos, pegar um daqueles impulsos. Daí, quem sabe, por ventura, abrir os lábios e aumentar os ângulos da face e amanteigar os olhos; sem obrigação, nem culpa ou exagero, sorrir.



1 Comentários:

  1. Uma das coisas mais difíceis - e legais - de se fazer é a narrativa de uma cena sem que o leitor - espectador - se disperse entre vírgulas, acentos ou eventuais incoerências do processo.
    Aqui, a gente já reconhece a sua personalidade desde a primeira letra. Mas esse não é o caso. Lembro-me que seu espaço sempre trouxe uma discussão a tona, como se as verdadeiros interesses da sociedade sempre ficassem submersos. E ficam, realmente.

    De qualquer forma, o "serious" em questão é mais admirável do que se imagina. Acredite que a atenção é chamada justamente por essa forma "não feliz integralmente" se formar em sua expressão.
    Se os oportunistas não sabem reverenciar um estado de espírito natural, quem perde são eles. Sempre.

    ResponderExcluir