O amor não está aqui

10.20.2013 -

O amor não está aqui. Depois que pegou a rota do fim, decidiu sumir. Viajou, talvez para as Ilhas Fiji, quem sabe pra Groenlândia ou Casca, a cidade onde mora a minha avó. Eu esvazio os bolsos, capto olhares em locais lotados e escuto músicas sentimentais sem uma agulhada involuntária pelo corpo. Nenhum tremelique, nada. Ele está longe e é chegar alguém com coisa que o valha numa distância de 200m para sentir o vômito subir a garganta, os olhos revirarem enquanto penso nas promessas, nos discursos, nas cartas falsas e traições daquilo que parece muito e nunca é.

O amor mudou de endereço. Trocou de roupa, ocultou o status e alternou o roteiro. Deu a volta em mim e, num chapéu bem calculado, fez com que caísse direitinho na armadilha emocional que é assistir a vida em cor-de-rosa. Levou na sacola um tanto da minha pureza e boa parte daquela ingenuidade juvenil que nem sabia ter. Me fez acordar no poço sem fim que é soltar a mão e depois ter que andar em transe por aí sozinha. E, quando perto novamente numa tentativa de resgate, que expulsar esse maldito, o amor, como pombas contaminadas simplesmente porque não tinha mola nenhuma lá embaixo.

O amor deve estar lá. Longe, onde a minha imaginação nunca cogitaria deixar pegadas. Na estabilidade de uma sem-gracice só, pregado no colo morno de alguém que não carregue a loucura no sangue se obrigue a levantar toda segunda-feira cedo para ir para a terapia. Silencioso, num domingo qualquer; coberto de não-ditos e funcionando superbem porque existem pessoas cujo talento é fazer dar certo - o que quer que isso signifique. Ali, naquele espaço entre um hiato silencioso e outro. Desacreditado e pequenino, ou quem sabe autêntico e, estrelado. A milhas e milhas daqui, é bem provável que, vivo.

O amor, talvez, nunca tenha vindo. E, dona da própria tolice, posso ter confundido coisa qualquer com paixão, segurança com comodidade e aquela ansiedade toda como um tapa-buraco bonito para a angústia do fim de cada dia. Ficou naquele arrepio dos primeiros dias, escondido dentro de alguma música calminha que dê pra se escutar de coração cheio e estômago vazio. Perdido entre memórias e planos, reabilitado num solo fértil qualquer que não a janela ensolarada do meu quarto quando é primavera. Fez que vinha e não foi nada além de um tombo desses que esfolam de leve a alma da gente.

O amor, aquele próprio, quando questionado eu logo me apresso e respondo: presente. 

Eu sigo quieta, é a liberdade adquirida do meu espírito - aquela, tão almejada - que praticamente grita.