Se eu fosse sonsa

9.12.2013 -

A vida seria imensamente mais fácil, com toda certeza. Se eu fosse sonsa, digo como certo que teria o emprego dos sonhos, um cara perfeito apaixonado ao lado - ou vários correndo atrás, interessados até demais -, a adoração de toda a família (e sim, eu disse TODA) e a paz de espírito até então muito por mim almejada. O que tem esse arquétipo mundaníssimo de mulher que encanta à maioria e em mim causa nada mais que francos bocejos? Sinceramente, não sei. Sei que teria mais sorte se tivesse nascido blasé.

As sonsas, elas jogam os joguinhos emocionais que tanto atiçam os homens. Gato e rato, hot'n'cold, fazer a desinteressada; é com elas. E, bem, conseguem sempre a atenção de cada um e possuem mais duas, três opção na manga, caso aquele moço que lutou taaanto para sair com ela suma do mapa - o que nunca, nunquinha de fato acontece, afinal, perder uma moça tão nem aí pra ele pode causar um remorso enorme futuramente. 

Não, ela não conversa sobre astrofísica ou lê o jornal diariamente e nem sabe opinar quanto à questão dos médicos cubanos. As palavras certas e uma mente brilhante não são o que a fazem tão "especial". Sua capacidade para ser mediana, seu imenso talento em seguir a cartilha dos corretismos é que a faz essa admirável garota. Opinião, para ela é o equivalente a um segredo daqueles inconfessáveis, nem mesmo à amigo de infância ou terapeuta. Talvez, seja até mesmo lenda. 

Dançam bonitinho numa festa lotada, falam baixo em salas cheias e conquistam chefes, superiores e empresas com seu jeitinho just in time de produção, sempre quadrado de certeiro, nunca inovador. Esse jeitinho inho inho de ser, a incógnita que mulheres reais chamam de falta de sal e os cegos mais babacas definem como qualquer atração inexplicável.

Sorriem, as sonsas sorriem bastante. Daquele jeitinho recatado que os caras gostam, porque bem, elas  representam o disfarce exato da loba em pele de cordeiro e fazem o que for para agir de acordo com o esperado. Porque as sonsas, de frívolas tem muito pouco ou quase nada. É preciso um talento para o engano, para o mistério, para a conquista caso se deseje ser uma sócia das moças precavidas que tem esse quê que mulher nenhuma vê e encanta o macharedo.

É impulsiva por instinto? É sincerona por criação? Se for desbocada, pior ainda. Eu sinto muito, é provável que a recusa do convite venha logo na sequência. As sonsas, porém, elas não sentem nada. Premeditam, se contém, são pacientes feito cordeiros no rebanho. E se dão bem, claro que sim: com tanta suavidade, o mundo fica desejoso de ver fora do centro de si mesma e em tons de vermelho, preto, roxo alguém que opta sempre pelo bege. Porque se eu fosse uma delas, eu afirmo e não retiro: seria menos irracional e emotiva. Deixaria para trás meu temperamento instável e sorriria alegre de mãos dadas com essa despreocupação egoísta e rasa quanto à humanidade. E, por consequência, mais feliz. 

Caso fosse eu uma dessas espertas disfarçadas, levaria os homens à loucura com minha indiferença, contaria muito pouco às amigas, seria discreta em família e, claro, viveria para o trabalho e estudos porque as sonsas sabem muito bem parecer ótimas hardworkers independentes e criaturas cultíssimas. Gostaria de Beatles, essa obviedade, e The Kooks também, porque é fofo. E de todas as bandas gostáveis tipo Coldplay, e de rock nacional também. Comeria pouquinho e não me permitiria a pachorra de tomar um porre vez que outra nunca, nunquinha - o controle, não se pode perder em hipótese alguma sendo então uma mosca morta fake. 

Deveria falar menos palavras de baixo calão, não demonstrar interesse algum e esquecer a ideia fantasiosa de deixar alguma marca, qualquer umazinha, nesse mundão. A autenticidade, além de não figurar como pré-requisito, parece ser fator determinante para a exclusão da possível candidata: ser única com que intuito, numa função onde agir conforme o padrão é que faz os benefícios todos aparecerem pela frente? No raso, no rasinho é que dá pra se ir 

Roupa curta? Cores vivas? Estampas? Que nada, jeans e casaquinho como uniforme. Cores claras. Tons pastel. Calcinha grande. Vocês sabem, faz parte de representar o enigma forçado se parecer com uma dama na sociedade pra ser uma puta na cama. Tá tudo no roteiro. Fingir gostar de séries com sangue e rir piadas incompreensíveis é o próximo antecessor, aliás. É agir da maneira que faça os moços pensarem que há algo a mais nesse mundo pessoal que não relevam - só que, em muitos casos, não. 

Se eu fosse sonsa, daria uma vontade imensa de ser exatamente essa bagunça incontida que sou eu mesma. Do contra que sou, também tenho certeza.


4 Comentários:

  1. As famosas: "essa é pra casar" ... Mas Maravilhoso seu texto, como sempre neh! Um prazer imenso ler! Beijo.

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    1. Nojinho, né? Me seguro pra não vomitar, tanto a me deparar com esses tipos como quando escuto que EXISTAM mulheres só pra casar/só pra transar haha

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    2. Nossa põe nojinho nisso! Pois é, rídiculo isso! Parece que só pelo fato de preferirmos ser o oposto dessas "santinhas", isso nos classificaria como más esposas, ou mães, sei lá! Acho isso o Ó.. kkkkkkk

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