In Wonderland

9.28.2013 -

"E você, qual a sua triste história?", ele perguntou. Olhei ao redor e pude ver de perto o estado depressivo que permeava naquele local bizarro. Como viera parar ali? Com cachorros pulguentos, discos em vinil, copos e bolachas de copos, latas de cerveja, roupas muito sujas. Eu sabia que havia chegado num táxi, eu tinha certeza que tudo que gostaria era de pegar o telefone e discar para chamar outro que me carregasse de volta, mas a polidez de um comportamento cauteloso em não querer ser mal educada ou compreendida fazia nascer raízes no chão imundo. 

A minha amiga de perna de índio no chão, chorando porque os motivos dela pra se debulhar e deixar sair pra fora  Me neguei a ser ridícula a ponto de destrinchar o meu arsenal de bobices e aumentar ainda mais a aura dramática de uma noite de fim de semana. "Esse som, ó, esse é de negão" e lá ia o rapaz, desajeitado e travado, esquizofrênico e habitante de um outro mundo mesmo com os pés bem colocados neste nosso. Éramos todos loucos ali, cada um dentro de suas particularidades.

E trocava de Stevie Wonder para Jackson Five, de Jorge Ben para qualquer blues que eu, francamente, desconheço. Minha triste história doía ainda mais feito ferida com vida própria em dia de chuva fina. Era começar a recitar para sentir o acordo feito entre boca e olhos para que junto com as palavras que desaguam, um rio de lágrimas abra nascente e jorre por toda a maquiagem sempre.

A historieta que me fazia então alguém mais durona e um tanto menos sentimental era dessas que nem sempre merece a atenção de alguns minutos. É desses conflitos com a vida, é mais um dos baques de cair pra que se levante com mais força. Cicatriz que preferia esquecer, ainda mais numa noite furada onde me encontrava então numa peça destruída pelos baratos, com janelas devoradas por cupins e paredes com colagens psicodélicas.

Feito Alice num país de quase nenhuma maravilha, sentada à mesa redonda como quem espera o chá servido por um Chapeleiro qualquer, sendo questionada com atenção sobre o que fazia meus olhos tão escuros, vazios. Que era essa melancolia que aprendi a carregar e por mais que risse alto, festejasse alegremente, tomasse porres e pegasse os caras, me pegava desprevenida só de estar um pouco quieta? Filha dos tombos dessa vida, sobrinha das mortes todas desse ano, neta de uma predisposição a sentir muito por quem sente tão pouco: prematura, porém componente da minha predisposição genética em sofrer.

O moço continuava a me fitar. "Hã? Todo mundo tem um causo triste para contar". Sem o desejo de esboçar a dor do inferno que vivi até recentemente, apenas sorri. Com seus tiques de usuário das drogadições pesadas de anos e anos, ele sorriu. Não sei se sabia, ou fingiu, mas pareceu que sim. "Então tá, não quer falar, eu respeito: não fala". Assim ficou esquecido que algo me fazia cabisbaixa e certinha, calada e observadora; complacente e solidária. Outras pessoas se perdiam com mais afinco dentro dessas terras das ideias confusas e pesarosas, enquanto eu já saia.

Preferia o lado B da vida que a repetição desse conto cabisbaixo todo no repeat. Começava com uma música vagarosa e choradinha, mas logo se animava e lembrava das percussões bem marcadas e do jazz animadinho já sem piano, quem sabe com um solo de guitarra no fim. Até trocar de LP.

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