Eu não quero ser a gostosa da academia

9.30.2013 -

Quando meu instrutor comenta a facilidade que tenho para ganhar músculos - especialmente no braço - sinto uma vontade inesgotável de chorar. Ali, de pernas muito abertas entre uma série de adução e outra. O cara que tenta e tenta ficar bombado há mais de ano ali perto fazendo rosca escuta. Podíamos soluçar abraçados um no outro: ele, por inveja à minha facilidade renegada. Eu, por nunca ter como grande ambição ser uma dessas gostosas de academia.

Acho um amor a calça da La Bella Mafia com pin-ups que uma dessas ratas de musculação usa. Tem a cintura finíssima, os braços bem contornados, o bumbum pra cima. Eu tenho um tênis Adidas comprado ano retrasado e que usava para caminhar até o começo deste. E apenas três ou quatro calças. Vou como mendiga nos dias de preguiça extrema, aliás. Acordar às 7h com vontade de pular numa esteira e passar todas as músicas do ipod na convivência de senhoras que puxam papo, caras que secam enquanto o foco da mulherada é a retidão do quatro apoios e as formosuras moldadas "à peso" numa competição frenética é um desafio e tanto.

"Meio-dia é o pior horário. Tem fila de mulher correndo no banho e com os pentelho de fora esperando por um chuveiro", escuto da tia da limpeza. É simpática, geralmente puxa um papo que outro, enquanto separo a roupa e cuido pra deixar bolsa e sapatilha alinhadas, bem protegidas. Sofro com a primeira ducha, terrivelmente fria. Acerto na segunda, morna na medida. Ouço entrar no vestiário uma das réplicas das beldades fitness do recinto. "Meu percentual de gordura hoje é 12%, mas falei com o Edu e, certamente, consigo baixar pra 8% até o final do ano. Vou do 36 para o 38, daí é se adaptar para apertar na cintura, né Claudia?". 

Me assustei, aliás, minutos antes quando o personal da musa berrava sem um resquício de vergonha coisas como "FORÇA, PORRA. QUER VER RESULTADO? TEM QUE PEGAR PESADO". Eduardo, esse profissional de saúde, por certo também já teria me feito chorar, porém, de desgosto - como vir munida de toda a garra do universo pra um lugar onde se repete repete e repete pra depois competir e passar vergonha sem maquiagem com suor pingando na testa em posições bisonhas? Claudia, a moça de meia idade que limpa as nojeiras do banheiro feminino da academia, apenas concorda. Seria vergonhoso discutir frente à tamanho afinco.

Volto à cena onde meu instrutor, munido de sua boa vontade, quase me converte a querer um corpo de músculos protuberantes e celulite zero. Ele fala sobre minha boa predisposição genética, eu digo que meu pai já foi um puta fã de hipertrofia, ele diz que nem de whey eu precisaria porque me alimento bem e comer corretamente é muito mais importante. Ressalta minha boa resposta muscular e se redime por aumentar e aumentar meus pesos a cada mês - o que me rendeu uma distensão na panturrilha, e apenas isso. Eu penso no milhão de guloseimas, momentos, bebedeiras, e horas de lazer que me obrigaria a sacrificar caso aceitasse esse acordo escuso de me tornar uma adoradora de Gabriela Pugliesi e sua trupe. No chocolatinho depois do almoço, ainda que minúsculo e quase sempre muito preto, e que essa perda em tempos de TPM aumentaria ainda mais o caos do período.

Olho minha ficha. Vejo que assinalei, há alguns meses, 'definição muscular' e, apenas isso. Nada de ganho. Nenhum item que dissesse respeito a emagrecer. Correção de postura? Negativo. A massa da minha mãe, o biquíni sem canga. A preguiça matinal dos dias de matação, o braço rijo e sem vestígios de meu DNA de polenteira. As gostosas da academia reunidas com looks ótimos e coloridos, guerreiras à sua maneira por acordar cedo, treinar pesado e seguir dietas à risca. A minha vontade de dançar balé pra ter um corpo bacana com roupas bonitinhas não realizada em razão da dupla de joanetes que conquistei enquanto ainda praticamente (e, me enrolo para operar). Eu não quero ser a gostosa da academia, eu gostaria apenas de poder dar tchauzinho sem poder pensar se balança ou colocar short jeans sem pirar um pouco.

Gostosas, eu admiro vocês. De verdade. Pra caralho. Invejo, ainda que secretamente, o cuidado, a perspicácia e todo o foco que em mim falta para obter o que quer que que me exija a paciência do longo prazo. Com a crise crônica entre minha inconstância de prioridades e minha mesomorfia, continuo colocando meu dedão para entrar nessa escola de desenho corporal onde a gordura é severamente apagada apenas para não surtar diante de um desses espelhos de lojas de fast fashion que mostram as imperfeições todas aumentadas com lupa x8. Caso um dia eu decida entrar para o time esculpidamente belo de vocês, será uma baita vitória. Por enquanto, a cervejinha do final de semana é mais que necessária: nem sempre uma é suficiente.

3 Comentários:

  1. Acho essa coisa de academia meio louca.. Opinião pessoal, claro (n me apedrejem, pfvr). Sempre preferi as aulas de educação física que envolvessem um futebol, vôlei e afins do que as aulas no andar de cima, na academia puxando ferro. Não me atrai, simples. Pretendia começar a frequentar uma esse ano, confesso, mas no meu caso porque sou fininha e queria algo mais nos braços e pernas do que meus ossinhos avulsos, haha. Entendo que é a solução pra quem quer perder alguns quilos rapidamente (acho) e pra quem quer ter músculos em destaque, mas ainda prefiro os esportes que, pra mim, tem propósitos maiores do que modelar o corpo e isso se torna mais consequência do que qualquer coisa. Assim como não entendo o termo 'treinar', mas isso é outra história.. hauieoa

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