Vai dar

8.18.2013 -



   Quando em uma profunda depressão, em casa, surrada em pijamas e moletons antigos, conversava com um dos meus amigos héteros como quem procura alguma luz no fim de túnel pelo caminho decifrado por quem facilmente se encontra do outro lado da força - a masculina. Ao me ver devastada pelos últimos acontecimentos, desanimada para retocar a vida e irreconhecível se comparada à garota ativa e fortificada de uns anos atrás, me aconselhou sem aprumo: vai dar, cara. Assim, na lata e no topo de uma sinceridade que sempre lhe foi característica. Eu, que já o havia acompanhado em fase crítica após alguns percalços amorosos, me obriguei a questionar a veracidade daquela dica tão contraproducente no momento, uma vez que nem colocar roupa nova e ter emagrecido muito me fazia ansiosa para sair de casa atrás de outros homens. Ele, então novamente comprometido, repetia: vai lá e exorciza o que existe em ti daquilo que ainda machuca. Afinal, gente que dá tá mais ocupada em ser feliz e acaba transmitindo isso pro resto da sociedade. Só dessa maneira seria possível ir em frente, se sentir desejada e ver cada vez mais distante aquilo que um dia já foi sinônimo de eternidade - isso, em sua máscula e juvenil opinião de moço do século XXI.

   Curioso, mas lembrei de imediato que li por aí certa vez que, para os franceses, o orgasmo é chamado de "la petit mort". Ou seja: atingir o ápice sexual e cair ao lado de outro corpo igualmente em êxtase é, para o povo da França, nada mais nada menos que desfalecer um pouquinho toda vez que o gozo é sinônimo de sucesso. Para mim, no caso, ser envolta pela atmosfera sexual de outrem deveria representar a morte de um sentimento que ia aos solavancos, que se arrastava ao longo do tempo, que se apegava a esperanças burras de frases de efeito e esquecia a realidade. Se entregar, de bandeja, corpo desnudo e alma limpa significaria aos poucos firmar um presente até então esquecido e organizar no passado algo que já deveria estar colado lá há algum tempo? Inexperiente e mulher de um homem sentia o emaranhado de ansiedade, frio na barriga e um medo bobo apenas de imaginar mais um laço rompido e outra zona de conforto deixada para trás. Por um tempo, cortei muito os caras que me chamavam para sair. Me escondi atrás de livros, obrigações e um cansaço da rotina apertada. Fugi como pude de toda desopressão por me esquecer, ingênua, que quase todo final cansa, mas que todo fim liberta.

   E foi então que eu dei. Em primeiro lugar, um tempo espaçoso à mim mesma, tão exausta de guerrear por um melhorias onde, por peça pregada do destino, o vilão muitas vezes é quem julgávamos o mais próximo possível de Clark Kent. E fiquei muito dentro da própria alma até que fosse a hora necessária de romper a bolsa ilusória que criei com o resto do mundo e cortar o cordão umbilical que me ligava a pessoas, situações e coisas que nem ao mesmo representava. Despi muitos de meus preconceitos, seduzi a mim mesma com roupas novas, uma tatuagem e mudança de cabelo, livrei minha culpa de comportamentos antes pré-julgados como vergonhosos, cruzei a linha de sair do óbvio - para alívio de quem acompanhou meu drama de vida - e a cada dia consigo dar demais de mim mesma em meu emprego, no novo curso, na academia e na reciclagem de novas pessoas que se constrói nesse momento que define minha existência. Abri, antes mesmo da blusa, a cabeça: pra que fosse possível me divertir sem chance alguma pro arrependimento, pra fixar no centro da testa que estar viva é agora, que toda manhã que desperta nos é uma oportunidade de ser mais feliz que ontem à tardinha. 

   Passei, aberta, a dedicar meus dias apenas à minha felicidade, a distribuir as formas todas de prazer em prol única e exclusivamente ao meu sorriso. A estar inteira e íntegra antes de tentar enfiar pessoas em moldes pré-estabelecidos, fruto pretérito imperfeito. Pra que daí então eu conseguisse tirar o sutiã ou escutasse uma música com refrão sentimental e não brochasse antes mesmo de atiçar meu interesse pelo - até então - desconhecido. Foi a maior dádiva, foi dessas entregas conscientes quando, sem minha pressa habitual ou reposicionamento estratégico, acordei livre de pesadelos e sensações, de paranoias e insinuações. Tasquei minhas roupas de um canto qualquer de um quarto estranho, beijei a testa de algum santo anjo que teve a paciência de Jó diante a tantas negativas, chamei meu táxi e desci arbitrária, dona e senhora de meu próprio destino, solta no sereno de um domingo desses aí despertando. Vai dar, vai dar pra ser feliz sem sustos nem amarras, sem urgência e nem karma, sem ele e por mim. Vai dar, vai sim. 

10 Comentários:

  1. Eu AMEI!!! Tudo que eu precisava ler num domingo como esse. Obrigada e parabéns, Camila!

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    1. Capaz, queridona! Quem tem que agradecer soy yo :) um beijão!

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  2. Depois de passar anos presa as pessoas que nos cercam cansada da dependência quase que ilícita, é bom sentir a liberdade de tocar a vida e a própria felicidade sozinha! Adoro essa sensação e luto pra que ela nunca suma..Agora vivo de forma que quem for chegando que se ajeite da forma que der na minha vida, sem que eu precise me adaptar e virar uma dependente novamente! Adorei o texto!

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    1. A gente apanha muito da vida até aprender a se moldar assim, né? Mas é muito, muito bom quando acontece. Sinônimo de crescimento. Um beijo, Natalie!

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  3. Na leva de textos maravilhosos como sempre, mais um, esse. Vai dar sim, e eu torço mais a cada dia pra que tudo se resolva e cada linha seja o mais verídica possível. Que tudo isso que no fundo tu sabe, entre nas tuas veias de vez e chegue ao coração. beijo linda

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    1. Amém, Luh. Tu é uma grande amiga. Mesmo. Obrigada por ter entrado na minha vida de forma mais intensa justo no momento que mais precisei. Tô aqui pra tudo, e acho que tu sabe disso :) Beijos beijos beijos!

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  4. Camila, me emocionei.
    Não emoção de chorar ou coisa do tipo, mas de sentir suas palavras penetrando um tanto mais na alma.
    O que dizer além de obrigada? Assim, simples e preciso. Obrigada porque sempre precisamos ler raridades assim.

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    1. Gabriele, que lindo ler isso. Te agradeço, muito, porque também escrevi com o coração. Um beijo!

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  5. Claro que vai dar certo, porque a gente passa por certas coisas e amadurece é pra isso mesmo, pra dar certo e ser incrível. E claro, porque você merece que dê certo, certo, certo.

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    1. Ana, sua linda! É muito inspirador ver que, contigo, tem dado certo demais. Motivação da vida amorosa hahaha só torço pela tua felicidade. Foi lindo te ver de noiva :)
      Beijos!

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