O amor, ele é perecível

8.17.2013 -
  

 "Foi o que eu disse pra ela: o amor, ele é perecível. Não é como se pensa, que pronto, se ama e deu. Se empacota o sentimento e a validade perdura o infinito, porque deve ser possível. Se abandona num canto, e lá fica, numa caixa de doações onde ninguém tasca porque nos ingredientes contém o nome do dono. Não, não. Algumas pessoas enfiam na cabeça a ideia de que podem amar amanhã, de que basta gostar pra caralho que se for duradouro reavive, que se pra acontecer não nos compete mover uma palha sequer pra consertar erros estrondosos, não fazer a fogueira apagar ou deixar definhar aos pouquinhos algo que já foi tão bonito um dia - e juram que será pra sempre, e falam que não existe igual e deixam assim mesmo já que nada precisa ser resolvido às pressas nunca. E dia nasce, noite morre e vai se indo talvez com a ventania da temporada invernal ou dentro de um bolso qualquer, feito papel esquecido logo antes de a roupa girar na máquina que a lava. Se diminui feito o salário curto de estagiário em fim de mês e dói aos poucos pra se tornar cicatriz fechada ao invés de ferida aberta sempre que tocada. Esgota, como água gelada que levamos para caminhar num dia de calor intenso. É burrice, é insanidade pensar que ama-se e pronto, que firmado um afeto, seremos reféns dele e podemos apenas abandonar - temporariamente - ou deixar em stand by porque um dia engatamos a primeira e dá pra sair do ponto morto como se nada tivesse existido nesse hiato de tempo distante. O amor, ele desinfla aos poucos feito um balão que murcha por falta de ar enquanto ainda se está enchendo; e morre um pouquinho toda vez que tem a chance de ser regado e gotículas de água optam por ficar distante. Pega o peito da gente e aperta feito aparelho de medir pressão. Entorta, vira do avesso, desintegra verdades absolutas. E não resiste. Estraga as idealizações mais coloridas que a dura realidade havia pincelado no subconsciente. Aguenta pouco frente a um carinho atrás da orelha, uma admiração bem colocada e qualquer outro recipiente onde se possa se jogar sem a racionalidade dos cálculos todos de dores passadas, em soma aos medos futuros, multiplicados pela experiência adquirida. Perece mais que parece: é piscar os olhos num descuido cego e perder de vista. É segredo, é dessas receitas infalíveis que sobrevivem com o passar dos anos, mas é só ter o olhar bem treinado para as pequenas pecinhas, aquelas que compostas fazem o mundo ter um sentido maior e tentar encaixá-las reacende o desafio de estar vivo." 

2 Comentários:

  1. Olá Camila! Adorei conhecer o seu espaço, é lindo, você está de parabéns!

    "Entorta, vira do avesso, desintegra verdades absolutas."

    Nesse momento é bem assim que me sinto, virada do avesso e construindo novas verdades porque depois que esse tal de amor chegou as minhas foram todas desconstruídas.

    Beijo na alma!

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  2. Não basta gostar pra caralho, deixar a vida resolver, nem nada disso que tu mesma escreveu. Já dizia o Caio que se a gente não cuida, o amor morre, enche de erva daninha. É receita que precisa de toques diários e uma aprimoramento constante. Amor sozinho não se basta e até mata quem o sente quando ele adoece. Muito bom, like always

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