Antes que a gente se odeie

8.10.2013 -
  

 Antes que a gente se odeie, parei de responder. Desliguei meu celular, dormi noites pela metade, enchi de ocupações minha vida para que essa raiva não se alastrasse por entre os dois e invadisse os momentos em que sento no transporte público e me permito reflexões. Bebi dois espumantes, meia vodca e comprei um vestido novo. Fiz as unhas, mudei - de novo - o cabelo e espero o dinheiro sobrar nessa vida minha de estagiária para que dê pra fazer minha próxima tatuagem. Para não deixar que a cólera tomasse conta, deixei de visualizar nossas conversas, parei de criar hipóteses e não alimento mais essa senhora idosa que é a essa que definha a cada dia, tamanho o meu cansaço. Esqueci propositalmente alguns sonhos futuros pelo caminho e agora até sorrio, vê você como dá pra viver bem sem te odiar um pouco mais a cada dia que passa, tão covarde se transformou a história bonita que iríamos construir, fôssemos os mesmos lá do começos. Antes que a gente se odeie, disse algumas verdades e também que caso existe alguma centelha e hora ou outra ela cintile, que não não seja tarde e que você lute. A armadura e o escudo deixei ali, você sabe onde.

   Antes que a gente se odeie, subi as escadas pra que não nos ofendêssemos ainda mais. Resmunguei sozinha enquanto esquentava os pés na estufa. Enrubesci de repugnância, o vento caloroso fazia ainda mais vermelho o meu rosto fechado. Fiz do silêncio minha arma, almocei maçã para não comer sua comida e voltei a pé em meio a frio e chuva para não pedir favor nenhum. Passei por ti como uma desconhecida mesmo ainda residindo no mesmo local. Ignorei esses últimos anos de desgaste dos laços que já tanto nos fizeram amigas. Já nem sinto tanto, mas na verdade sinto muito por não poder criticar com liberdade e pro bem sem que a infantilidade grite horrores e me fira junto em meio ao surto todo. Não sabemos mais conversar e, antes que a gente se odeie, havíamos combinado que eu sairia dessa casa. Colocamos planos em marcha e, com alguns atrasos, deve acontecer dentro de no máximo uma semana. Torço, ainda que comedidamente, para que longe da intimidade cotidiana, consigamos trocar segredos, impressões e a rir da babaquice de algumas pessoas.

   Antes que a gente se odeie, um silêncio abissal se inaugurou como alguma medida preventiva que dá certo e parece funcionar. As afinidades se extinguiam há anos, e mesmo com duas vidas tendo tomado rumos cada vez mais distintos, insistíamos numa amizade que já não possuía mais pé, nem cabeça e apenas um coração alegre e contentado com lembranças de um passado adolescente bom. E confundíamos o que era um carinho muito grande com aquela mesma intensidade de sair pra balada sexta e sábado, passar o domingo dormindo e comendo porcaria. Passei pro lado de lá, afinal, o amor toma grande proporções e entrar em conflito é assinar contrato de exclusão. Mudei de curso e não contei a você. Fui ao mesmo salão que frequentamos, fiz amizades que encaixam com meus gostos "alternativos", passei por um período depressivo sem nem chamar por ajuda - já que não seria efetivo mesmo. Antes que a gente passasse a se detestar, foi até bom que tenhamos largado a corda e desligado os aparelhos daquilo que não vivia mais há algum tempo e colocássemos na parede da memória um mural bonito de recordações juvenis importantes.

   Depois que a gente ama, como é fácil cair na armadilha simples do ódio gratuito. Como é trabalhoso desapegar de sentimentos ruins e visões limitadas e deixar a quietude de uma, duas ou três decepções operar em cima daquilo que chamamos de futuro. Antes que a gente se odeie, talvez a gente se perca, quem sabe a gente se afaste; tomara que se acalme. As reminiscências, dessas mais bonitas, essas sim é que precisam ser salvas. 

4 Comentários:

  1. Sempre com as palavras exatas que precisamos para acalmar a alma.
    :)
    Parabéns Camila,desde de 2009 estou por aqui, lendo, me identificando, me acalmando com as suas palavras e os seus textos, que parece que você tem o manual de cada leitora do teu blog.

    ResponderExcluir
  2. Sempre com as palavras exatas! Adorei Camila! Parabéns, parabéns..

    ResponderExcluir
  3. Tão teu, em tantos sentidos. Tua vida, tua linguagem própria, teu talento, tua forma de ver e sentir o mundo. Fica tudo tão bom quando tu escreve, mesmo mesmo.

    ResponderExcluir