Eu odeio o Mr. Big

7.11.2013 -

   Descobri que odiava o Mr. Big faz pouco, compactuada pela centésima vez com o drama de Carrie ao ser largada em plena entrada do casório. Como fã da série desde antes de seu fim, apenas hoje lampejou em mim essa raiva do cara que já tanto mal havia feito à pobre coitada - que sim, deixou - e que ainda conseguiu fazer pior, mesmo com a estabilidade de um relacionamento maduro e as experiências dos dois em mãos. Como disse a protagonista do enredo feminino, tudo que havia para dar errado entre dos dois já fora cometido. Pelo jeito, não. A admiração mítica - quase lendária - somada ao charme daquele lorde bem vestido, homem de negócios irresistível cedeu lugar a uma ojeriza familiar, quase cordial em sua cólera que me dava choques assustadiços carregados de realidade.

   Com força, detestei atenta os detalhes sórdidos do whisky on the rocks remexido, do olhar leitor de íntimos desejos d'alma, do carro enorme com motorista estacionando naquela Big Apple onde não resido. Senti nojo ao buscar na memória o sem número de vezes que o filho da puta preferiu o seu egoísmo, uma mulher 15 anos mais jovem, o medo de se relacionar com a intimidade desnuda, a covardia frente a  nomear uma situação amorosa. O dia em que simplesmente se envergonhou numa dessas festinhas no apê da autenticidade da mulher que estava ao seu lado e não disse eu te amo. Deu bolsa cafona caríssima, apresentou à mãe como amiga - aos amigos como coisa qualquer - sumiu dois meses depois de ficar junto um ou dois anos. E a instabilidade que antes, julgava eu, um sinal nítido de amor-da-vida e paixão-inigualável me trataram logo de trocar de lugar ao constatar que a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida sacia muito mais que a bagunça provocada dentro do peito por um sujeitinho mimado que hora sabe o que quer hora não.

   Eu odeio o Mr. Big porque, chamado John, poderia ser mais um engravatado com cara de safado chique perambulando pelas noites quentes da cidade, atazanando super modelos e evitando se envolver com mulheres corajosas para sentir de verdade. Ridicularizo sua faceta de moço de negócios, desclassifico a sua péssima escolha de princípios, desclassifico a sua fraqueza de caráter. Abomino os furos de seus papos manjados, os farrapos de suas desculpas em frangalhos e os arrependimentos arrebatadores cheios de irracionalidade e tesão passageiros. E me compadeço com Carrie como quem limpa as lágrimas todas daquela amiga que se debulha de meses em meses, pelo mesmos cara tirano, com batida história cheia de erros costurados onde apenas amor nunca é o suficiente. Odeio as suas mãos enormes, a capacidade de dissipar problemas apenas estando presente, em frente, e seu ritmo lento de processar a vida enquanto o tempo ao redor mais que corre; voa. Seu talento para fazer com que caras bacanas pareçam meros chatos românticos previsíveis e sua inexistência de linearidade me aterrorizam idem. Ao mesmo passo que encantam, inebriam, cegam e apaixonam, se contradizem em um sentimento de aborrecimento hoje em mim.

   Bom mesmo é um homem desses lá em Nova York, amando a torto e direito alguém que não seja eu, fodendo em frangalhos um coração que nem sonhe em ser esse artefato que em mim bombeia sangue e sentimentalmente quase nem existe mais aqui, pensei. Ingênua, claro. Afinal, o que mais me faz abominar cada homem como esse existente na Terra é a capacidade de se multiplicarem e, completamente humanos, possíveis e dentro de suas singularidades, figurarem como presença marcada em algum momento da história de muitas mulheres por aí. E enquanto partem, casam, abandonam, voltam, reaparecem e somem de novo, cansam. A beleza, o coração e o espírito de quem tem coragem de sobra pra saber que pessoas são mais que momentos na balança que pesa a vida.
 


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